RITUAIS MÁGICOS NA CABALA E TUDO SOBRE A CABALA SEGUNDO A "SUPERINTERESSANTE"

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Rituais mágicos

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Invocar anjos e demônios, transformar metal em ouro, criar vida usando barro: para os praticantes da chamada cabala prática, corrente que ganhou força na Idade Média, nada parecia impossível. Conheça os rituais mágicos usados por esses cabalistas para entrar em contato com o sobrenatural.

Texto Michelle Veronese
O rabino Moisés de Viena gostava de contar aos amigos sobre o dia em que estivera na cidade de Rosenburg, na Áustria. Mal havia chegado e um mensageiro bateu à sua porta, dizendo: “Um homem está morrendo e quer um pouco de seu vinho”. Ele achou o pedido um tanto estranho, mas atendeu sem fazer perguntas. Mais tarde, descobriu do que se tratava. Corria a lenda, na Idade Média, de que os judeus dominavam as artes ocultas, sendo capazes de invocar anjos e demônios. Também se acreditava que o vinho usado em cerimônias judaicas tinha poderes mágicos e era capaz de curar doenças. O moribundo, como deduziu o rabino, pedira a bebida na esperança de escapar da morte.
Superstições como essas eram comuns no período medieval. Naquela época, o imaginário coletivo estava povoado por bruxas, magos e demônios. E, se alguma crença destoasse da religião dominante, o cristianismo, logo surgiam especulações, boatos e crendices. Era o caso da cabala ma’asit ou cabala prática, que muita gente via com medo e desconfiança. Segundo os estudiosos do misticismo judaico, essa corrente teria se desenvolvido paralelamente à cabala tradicional. Mas, em vez de estudar ou meditar sobre as forças divinas, seus adeptos propunham maneiras práticas de experimentá-las. “A mística judaica sempre incluiu rituais de magia”, diz Michel Schlesinger, rabino da Congregação Israelista Paulista. “Encantamentos, exorcismos e outras práticas eram realizados por essas pessoas. Hoje, esses rituais são vistos pela comunidade judaica apenas como objeto de estudo e curiosidade.”
Apesar do caráter mágico, os praticantes da ma’asit rejeitavam a alcunha de magos. Eles eram chamados de ba’alem shem, do hebraico “mestres do Nome”. Para entrar em contato com o mundo sobrenatural, esses cabalistas do truque usavam uma série de métodos secretos. O mais importante consistia na recitação dos chamados nomes divinos. Retiradas das escrituras sagradas, eram palavras utilizadas tradicionalmente para se referir a Deus e a seus atributos. Os cabalistas acreditavam que, se essas palavras fossem declamadas no momento certo e seguindo determinados rituais, podiam interferir no curso dos acontecimentos.
A rotina dos adeptos da ma’asit incluía rituais que teriam o poder de alterar a matéria. Esses rituais eram transmitidos de mestre para aluno, geração após geração: estudiosos acreditam que sua origem está na Antiguidade, em regiões como o Egito e a Pérsia. “O que se tornou conhecido como cabala prática era, na verdade, um conjunto de todas as práticas mágicas encontradas no judaísmo desde o período talmúdico até a Idade Média”, diz o historiador Gershom Scholem, no livro A Cabala e Seu Simbolismo.
A maioria desses procedimentos se perdeu com o tempo: somente alguns deles foram registrados em livros e tratados de magia. Entre os poucos exemplares conhecidos do gênero está o Sefer ha-Razim (“Livro dos Segredos” ou “Livro dos Amuletos”), do século 4, que ensina como invocar anjos. O Harba de Moshe (“A Espada de Moisés”), organizado entre os séculos 1 e 4, apresenta uma lista de nomes de anjos que teria sido transmitida diretamente a Moisés, o patriarca bíblico. Seu autor ensina a utilizá-los em todo tipo de encantamento, desde poções para atrair o amor e curar doenças até fórmulas secretas para conseguir andar sobre a água.
Os encantamentos, por sinal, eram muito populares entre os cabalistas mágicos. Acreditava-se que, fazendo uso de determinados comandos verbais, lidos em voz alta, seria possível conjurar entidades sobrenaturais. Essas práticas se baseavam na crença em uma dimensão invisível – chamada de mundo intermediário ou mundo do meio – habitada por milhares de anjos e demônios. Mas, para invocar tais entidades, era necessário usar os elementos certos e recitar as palavras adequadas no número de vezes indicado. Do contrário, o feitiço poderia dar errado e despertar forças incontroláveis.


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Forças sobrenaturais
A crença em anjos e demônios tinha como base alguns trechos específicos do Zohar. Segundo o livro sagrado da cabala, haveria 3 classes de demônios: um grupo parecido com os seres humanos, outro que lembraria anjos e um terceiro em forma de animais. A mais temida, no lado das trevas, era Lilith, a rainha dos demônios, que teria sido a primeira mulher de Adão. Lilith, dizia-se, era casada com Asmodeu e gerenciava suas hordas de uma caverna no fundo do mar. Para identificar a presença de um deles, os praticantes sugeriam afastar as camas e, sobre o chão empoeirado, procurar pegadas semelhantes às de pássaros. A tradição contava que alguns desses seres tinham pés de aves e, mesmo quando disfarçados de humanos, esse aspecto permanecia inalterado.
Durante séculos, essas lendas e rituais foram deixados de lado. Quando a cabala se popularizou e se tornou acessível a todos, no século 20, alguns deles voltaram a ganhar espaço, mas de maneira bastante simplificada. É o caso das recitações ou visualizações de letras e palavras hebraicas, com intuito de atrair equilíbrio e saúde para o praticante – o que não deixa de ser um tipo de magia. “No fim das contas, pouco importa se esses rituais, magias, superstições são reais ou não, se são fatos ou lendas”, diz Schlesinger. “Se o real e a fantasia enriquecem a nossa vida de alguma maneira, se nos fazem pessoas melhores, isso é o mais importante”.

Para invocar anjos e demônios
Origem
Foi descrito na Chave de Salomão, famoso livro de magia produzido entre os séculos 14 e 15. A obra era muito popular na Itália durante o Renascimento, quando diversos pensadores passaram a ler e produzir tratados sobre cabala e ocultismo.
Os ingredientes
• Roupas brancas, de linho ou seda
• Sapatos brancos
• Uma coroa branca
O ritual
É um ritual longo e complexo. Depois de vestir as roupas indicadas, escreva os nomes de Deus na coroa e coloque-a na cabeça. Trace no chão dois círculos, um dentro do outro. Os nomes de Deus devem ser novamente escritos entre um círculo e outro. O iniciado entra no círculo (no qual estará protegido) e profere uma série de orações e palavras mágicas para que a invocação ocorra. A entidade chamada realizará as tarefas que forem ordenadas.
Para voar e levitar
Origem
Não se sabe a origem ritual, mas dizem que era praticado pelos cabalistas desde a Antiguidade. Foi registrado no livro Grimório do Poder, atribuído a Aptolcater, um mestre dessa tradição que teria vivido na Turquia do século 17.
Os ingredientes
• Madeira branca e vermelha
• Óleo e neve
• Vesícula de carneiro
• Um livro
O ritual
Acenda uma fogueira com a madeira branca e vermelha. Aqueça um punhado de neve com óleo e guarde a mistura em um saco feito com a vesícula de um carneiro. Em seguida, lance o saco nas chamas e deixe-o queimar. O material, por fim, deve ser triturado e transformado em pó. Quando desejar levitar ou voar, sente no chão e pense no local onde deseja estar naquele momento. Você será transportado para onde quiser, voando mais rápido do que um falcão.
Para transformar metal em ouro
Origem
Este procedimento, também encontrado no livro de Aptolcater, lembra as práticas da alquimia.
Os ingredientes
• Pedaço de madeira, pedra ou metal
• Mercúrio, pó preto e pó vermelho
• Recipiente de barro

O ritual

Desenhe, sobre um pedaço de madeira, pedra ou metal, uma sequência específica de números e letras, dispostos na forma de um quadrado. A figura funcionará como amuleto de proteção: use-a durante o procedimento. Misture o mercúrio, pó preto e pó vermelho ao chumbo durante 8 dias e noites. Depois, lance a mistura em um vaso de barro. No exterior do recipiente, desenhe as letras consideradas mágicas e espere mais algum tempo. Ao abri-lo, segundo a tradição, encontrará ouro puro.
O golem de Praga
Criar a vida usando barro era uma das metas dos adeptos da cabala ma’asit. A tradição conta que vários rabinos teriam conseguido esse feito, usando seus poderes para criar um tipo de criatura chamada golem (a palavra vem do hebraico gelem, que significa “matéria crua”), que obedeceria às ordens de seu criador. Eles seriam semelhantes aos seres humanos, mas só na aparência, pois não teriam intelecto nem personalidade. O rabino Yehuda Leow, que viveu em Praga entre os séculos 16 e 17, ficou conhecido como o criador do mais famoso golem. Seu intuito, dizem, era usar a criatura para proteger os judeus que viviam na cidade. Mas, com o tempo, ela teria ficado violenta e se voltado contra o mestre. O golem de Praga virou estátua (foto acima) e foi tema de um filme rodado em 1936 (abaixo, à esquerda). A lenda cabalista também foi citada em um episódio da série de TV Arquivo X chamado Kaddish (abaixo, à direita).
Fonte:http://super.abril.com.br/historia/rituais-magicos/

Cabala – O misticismo judaico revelado

Qual a origem do Universo? Por que estamos aqui? De onde vem a vida? O que acontece depois da morte? Imagine se você pudesse fazer todas essas perguntas diretamente para a autoridade máxima no assunto. Isso mesmo: que tal ter uma conversa com Deus e ouvir dele todas as respostas?

Texto Daniel Schneider
No princípio, Deus criou os céus e a Terra. “Faça-se a luz”, e a luz foi feita. Depois, Deus criou o homem e o chamou Adão. Findos os 7 dias da Criação, o Senhor viu que tinha feito algo bom. O homem habitava o paraíso e tinha contato direto e constante com Ele. E daí Deus resolveu passar ao homem toda a sabedoria da cabala. “Adão conhecia a cabala”, dizem alguns praticantes. O assunto, porém, é controverso entre os próprios cabalistas. Teria o conhecimento da cabala sido passado de Adão a seus descendentes até Noé, depois até Abraão, Moisés e em seguida aos grandes mestres históricos, que selecionavam rigorosamente aqueles que estariam aptos a ser seus discípulos? Não há consenso sobre o momento em que a cabala foi revelada ao homem, mas todos os cabalistas concordam que o ensinamento sagrado veio diretamente do Criador, assim como os 613 mandamentos judaicos contidos na Torá, a bíblia judaica, que os cristãos chamam de Pentateuco. “A cabala é além do tempo, ela não tem nem começo nem fim”, diz o rabino israelense Joseph Saltoun, ex-professor do Centro de Estudos da Cabala, em São Paulo, e que hoje leciona em Vancouver, no Canadá.
Mas, afinal, o que é a cabala? Bem, para tornar mais simples a tarefa de explicar, vamos começar dizendo o que ela não é. Ok, cabala NÃO É religião, autoajuda, superstição, magia, bruxaria, sociedade secreta, meditação, adivinhação, interpretação de sonhos, ioga, hipnose ou espiritismo, embora possa estar relacionada a todas essas coisas. Agora fica mais simples entender o que a cabala É: um conjunto de ensinamentos sobre Deus, o homem, o Universo, a Criação, o Caminho, a Verdade e coisas afins; uma revelação de Deus para o homem. “Ela nos diz por que o homem existe, por que nasce, por que vive, qual é o objetivo de sua vida, de onde vem e para onde vai quando completa sua vida neste mundo”, diz Marcelo Pinto, representante do centro de cabala Bnei Baruch no Brasil. “O ser humano tem muitas questões, e a cabala é um caminho espiritual que permite trazer de volta o elo com a verdadeira origem de tudo”, explica Ian Mecler, professor de cabala no Rio de Janeiro e escritor de livros como O Poder de Realização da Cabala (Editora Mauad). Para Shmuel Lemle, professor da Casa da Cabala, também no Rio, “nada acontece por acaso. Existem leis de causa e efeito. Assim como existem leis físicas como a lei da gravidade, existem leis espirituais”.
Independentemente de quando a cabala tenha surgido, o modo como a conhecemos hoje é o resultado da transmissão desses ensinamentos por meio da tradição judaica. A palavra cabala (????, em hebraico, cuja pronúncia mais próxima do original é “cabalá”) significa receber/recebimento. A cabala é uma forma de misticismo, pois ensina que é possível ao homem ter contato direto com esferas superiores da realidade, ou mesmo com manifestações do próprio Criador. Portanto, de um modo simplificado, a cabala é o misticismo judaico, ou a corrente mística ligada à tradição do judaísmo, para ser mais exato.
União com o criador
Grosso modo, a cabala está para o judaísmo assim como o gnosticismo está para o cristianismo e o sufismo está para o islã. Gnosticismo e sufismo são as correntes místicas ligadas respectivamente às tradições cristã e muçulmana. Como misticismos, essas 3 correntes têm muito em comum (veja o quadro da página ao lado). A maior parte das diferenças está no modo de transmissão do conhecimento, adaptado à tradição em que aquele tipo de misticismo se desenvolveu. Esse raciocínio não vale apenas para as 3 religiões chamadas abraâmicas (por serem todas herdeiras do patriarca Abraão) mas também para as místicas orientais, como hinduísmo, tao e budismo, além do zoroastrismo na Pérsia, só para citar as mais conhecidas.
Se a cabala é um tipo de misticismo, talvez seja o caso de explicar: o que é misticismo? Em poucas palavras, é a crença na possibilidade de percepção, identidade, comunhão ou união com uma realidade superior, representada como divindade(s), verdade espiritual ou o próprio Deus único, por meio de forte intuição ou de experiência direta em vida. Na intenção de atingir esse tipo de experiência, as tradições místicas fornecem ensinamentos e práticas específicos, como meditação e aperfeiçoamento pessoal consciente. Nosso foco nesta reportagem, a cabala, não é exceção. Para entender melhor, vamos dar uma espiada no passado?
Tradição oral
Seja qual for o primeiro e privilegiado homem a ter recebido o conhecimento esotérico da cabala, ninguém discute que os ensinamentos foram transmitidos oralmente ao longo de muitas gerações, até que alguém resolvesse eternizá-los na escrita. Os primeiros escritos conhecidos com referências a esses ensinamentos datam do século 1. São livretos reunidos numa coleção chamada Heichalot (“Os Palácios”), que versam sobre os passos necessários para ascender evolutivamente através de 7 palácios celestiais, com ajuda de espíritos angelicais. Mas os livros mais importantes da cabala são o Sefer Yitizirah (Livro da Criação) e o Zohar (Livro do Esplendor), ambos de origem incerta. O primeiro teria sido escrito no século 2, mas seu autor é desconhecido. No caso do Zohar, a situação é ainda mais complexa. Para alguns cabalistas, ele foi escrito pelo rabino Shimon bar Yochai, também no século 2. A maioria dos estudiosos, porém, acredita que o Livro do Esplendor seja de autoria do escritor judeu-espanhol Moisés de León, que divulgou os manuscritos no século 13.
Embora o Sefer Yitizirah e o Zohar concentrem em suas páginas os principais ensinamentos da cabala, é importante lembrar que a Torá é tão importante quanto eles. Isso porque, segundo a cabala, a Torá contém ensinamentos preciosos codificados dentro do texto sagrado – decifrar esses ensinamentos ocultos é, por sinal, um dos principais propósitos do misticismo judaico. Uma das maneiras de interpretar a bíblia hebraica é recorrer a códigos e números: a guematria, a face matemática da cabala (veja reportagem na página 32), atribui valores numéricos a cada uma das 22 letras do alfabeto hebraico. A ordenação dessas letras no texto bíblico seria uma das maneiras que Deus teria encontrado para revelar ao homem os segredos do Universo.
As interpretações da Torá são tão importantes que foram divididas em 4 níveis de profundidade. O 1º nível, Peshat, é aquele com que todos leitores estão acostumados, mais simples, que compreende o sentido literal do texto. O 2º, Remez, já considera os significados alegóricos da linguagem (alusões). No 3º nível, Derash, entram comparações entre trechos similares e metáforas. O último nível seria aquele que compreende o sentido secreto e misterioso da mensagem divina: Sod. Juntos, os nomes das interpretações já possuem um significado próprio. Combinando-se as primeiras letras de cada um, obtém-se a palavra PaRDeS, que significa paraíso e remete à finalidade última do esforço de interpretação. Isto é, ao finalmente compreender a mensagem que Deus colocou nos textos sagrados, o cabalista receberia de volta o conhecimento do paraíso, como se lhe fosse devolvida a chave para retornar ao Éden, do qual Adão foi expulso por desobediência. “É como uma gota retornando ao oceano, de volta à realidade divina. Não é um processo fácil”, diz o rabino Leonardo Alanati, da Congregação Israelita Mineira.
Mestres e discípulos
Durante séculos, especialmente após a destruição do Segundo Templo em Jerusalém pelos romanos, no ano 70, a sabedoria da cabala foi cuidadosamente transmitida “por mestres iluminados somente a pequenos grupos de seus discípulos mais brilhantes e inspirados”, conta Alanati. Os discípulos ideais eram homens maduros (mais de 40 anos), pais de família, de comportamento exemplar e ávidos por descobrir os segredos do Universo. Não eram muitos, portanto, aqueles que se tornavam mestres e davam continuidade à transmissão do conhecimento oral.
Para boa parte dos cabalistas, as restrições tinham uma razão clara: o público não estava preparado para receber esses ensinamentos. “Esse é o principal motivo para a transmissão restrita”, opina Mecler. “Hoje, a evolução da ciência ajuda a compreender muitos dos ensinamentos antigos”, diz. Mas o motivo de tanto segredo não era somente a escassez de discípulos ideais. Em diversas épocas, por razões diferentes, os judeus foram proibidos de professar publicamente sua fé – a perseguição aos cabalistas atingiu o clímax no século 16, durante a Inquisição espanhola (veja reportagem na página 56). Além disso, “a cabala contém uma reinterpretação revolucionária do texto bíblico, que usa uma simbologia complexa e uma linguagem ambígua”, diz Alanati. Por causa disso, em muitas ocasiões os cabalistas foram considerados hereges. Até hoje, o estudo da cabala é condenado por várias vertentes do judaísmo.
Entre o período final da Idade Média e o fim da Idade Moderna, houve um ressurgimento da cabala. No século 13, o Zohar foi distribuído pelo escritor espanhol Moisés de León; no século 16, os conhecimentos foram sistematizados pelo místico Moisés Cordovero, um dos sábios a se refugiar na cidade israelense de Safed; em seguida, Isaac Luria divulgou novas interpretações dos ensinamentos, que foram espalhados por vários mestres pela Europa, fazendo da cabala a teologia dominante em círculos escolásticos e no imaginário popular judaico; e, no século 18, o rabino Baal Shem Tov fundou o hassidismo, variante ortodoxa do judaísmo que ensinava uma versão mais “fácil” da cabala. De todo modo, “a essência é a mesma há 4 mil anos”, diz Mecler. “O conhecimento não muda, assim como as leis da física não mudam. Muda só a forma de transmitir”, diz Lemle.
Hoje, com o advento da internet, o conhecimento da cabala é acessível a qualquer interessado, ainda que de forma simplificada. “Estamos prontos, então a hora chegou”, conclama Lemle. Nos séculos 20 e 21, foram feitas diversas traduções do Zohar para o hebraico moderno (o idioma original é o aramaico) e para o inglês (não existe uma versão completa em português). Mas o fator que mais contribuiu para a popularização da mística judaica foi a recente adesão (desde a década de 1990) de celebridades como Madonna, Mick Jagger, David Bechkam, Britney Spears e outras (veja reportagem na página 44).
A organização responsável pelo surgimento da cabala pop é o Kabbalah Centre, uma escola de cabala fundada em 1984 na cidade de Los Angeles. Lá, como você pôde perceber ao ler o nome dos famosos, o acesso aos ensinamentos não é restrito a judeus. “Temos alunos de várias religiões”, diz Yehuda Berg, um dos coordenadores do centro americano. “Não vejo problema nisso.”
Nem todos estudiosos aceitam a ideia de que a cabala deva ser acessível a todos. A atitude do Kabbalah Centre provocou reações indignadas de cabalistas mais tradicionais, como o iraquiano Yitzhak Kadouri, um dos mais importantes estudiosos da cabala no último século. “A cabala não é moda”, disse em 2004, comentando a adesão de Madonna ao misticismo. “Ela deve ser estudada somente por judeus.”
Controvérsias à parte, a verdade é que a cabala ganhou milhares de aspirantes de diversas religiões nos últimos anos. Mas essa não é a primeira vez que acontece esse tipo de “sincretismo”. Veja a seguir como diversas crenças e religiões encontraram na cabala uma parceira de peso.
Parcerias poderosas
Durante o Renascimento, a cabala despertou interesse de grupos místicos cristãos, intrigados com a compatibilidade entre as duas tradições. O resultado foi a criação da cabala cristã (ou católica), que levou novos níveis de interpretação aos textos sagrados cristãos. “Considero Jesus um mestre de cabala”, diz Mecler. Um sincretismo mais profundo resultou no surgimento da chamada cabala hermética, que reúne ensinamentos de gnosticismo, alquimia, astrologia, religiões egípcia, greco-romana e pagãs, tarô, tantra, maçonaria, hermeticismo, neoplatonismo, hinduísmo e budismo, em uma espécie de síntese de todas as tradições místicas ditas autênticas. Outra variante é a cabala prática, que trabalhava com o uso da magia, incluindo a criação de amuletos e encantamentos, e teve seu apogeu na Idade Média (veja reportagem na página 62).
Mas, além dessas tradições cabalísticas distintas, a própria cabala judaica tem diferentes correntes. Uma delas é a já citada cabala pop. Outra variante tem como expoente o Bnei Baruch Kabbalah Education & Research Institute, fundado em 1991. Autodenominado o maior grupo de cabalistas em Israel, o Bnei Baruch não considera a cabala um misticismo, mas “uma ferramenta científica para o estudo do mundo espiritual”. A proposta deles para compreender o Universo é aliar os estudos científicos da física, da química e da biologia às ferramentas cabalísticas. Seu fundador e atual diretor, o filósofo Michael Laitman, é Ph.D. em cabala pela Academia Russa de Ciências e mestre em biocibernética médica.
Além dessas e, claro, do judaísmo hassídico, existem outras correntes – mais conservadoras, mais literais, mais flexíveis… “Cada escola se liga mais em um ou outro mestre”, esclarece Mecler. As diferenças são na ênfase em cada aspecto da sabedoria, mas todas seguem a base comum dos textos sagrados e da tradição oral. “Existem muitos mestres, e cada um pode escolher aquele com o qual se identifica, mas não há diferença na base do ensinamento”, diz Lemle. Afinal, como costumam dizer, “a Verdade é uma só”. Que tal conhecer um pouco dela?
Deus-infinito
Assim como a religião judaica, a cabala afirma que tudo o que existe vem de Deus. Entretanto, o Deus único não é compreendido exatamente da mesma maneira. Se, para a religião tradicional, Deus é o todo-poderoso Criador de todas as coisas, para a cabala Ele não é somente o Criador mas é também a Criação. Ou seja, a Criação não é dissociada do Criador, mas parte d’Ele. A existência de Deus não seria, portanto, distinta do espaço e do tempo; o espaço e o tempo estariam contidos no próprio Deus-Infinito. Mas não vá pensando que já entendeu, porque isso não é assim tão simples. E nem imagine que essas racionalizações vão proporcionar a você um entendimento profundo de Deus. Por um simples fato: segundo a cabala, ou mesmo a religião judaica, o Deus-Infinito não pode ser compreendido pela nossa mente física limitada.
Claro que, apesar disso, os cabalistas não deixam de estudar esses ensinamentos, porque os consideram fundamentais para prosseguir no caminho da evolução espiritual. Um dos estudos mais importantes é justamente o que diz respeito à natureza da divindade. Para começar, os cabalistas preferem o termo Deus-Infinito – uma tradução para ??? ??? (lê-se da direita para a esquerda), ou Ein Sof, aquele que veio antes de tudo, que precede a Criação. Veja o que diz o Zohar sobre o Ein Sof: “Antes de dar qualquer formato ao mundo, antes de produzir qualquer forma, Ele estava só, sem forma e sem semelhança com qualquer outra coisa. Quem então pode compreender como Ele era antes da Criação? Por isso é proibido emprestar-Lhe qualquer forma ou similitude, ou mesmo chamá-Lo pelo Seu nome sagrado, ou indicá-Lo por uma simples letra ou um único ponto… Mas, depois que Ele criou a forma do Homem Celestial, Ele a usou como um veículo por onde descer, e Ele deseja ser chamado por Sua forma, que é o nome sagrado ‘YHWH’”.
Pode parecer estranho não poder dar um nome a Deus, tornando-o de certa maneira inacessível para os homens. Afinal, se é assim, como pode existir uma experiência mística que permite esse acesso? Bem, a cabala explica que o contato com Deus é realizado indiretamente, por meio de um de seus desdobramentos. “Para tornar-se ativo e criativo, Deus criou as 10 sefirot ou emanações. As sefirot formam a Árvore da Vida, que representa os aspectos de Deus existentes dentro de nós”, explica o rabino Alanati. Ou seja, uma maneira de ter o contato místico com Deus é através de uma das 10 sefirot, as mesmas representadas no famoso diagrama. Alanati explica que as 7 esferas mais baixas estão diretamente relacionadas com os 7 dias da Criação descritos no livro do Gênese.
Mas como teria se dado exatamente a Criação? A cabala tem um livro dedicado a esse tema: o já citado Sefer Yitizirah. O texto ensina que a primeira emanação do Ein Sof foi ruach (espírito/ar), que em seguida gerou fogo, responsável por formar água. A existência real dessas substâncias potenciais foi comandada por Deus, que as utilizou como matérias-primas de toda a Criação. Por exemplo, a água deu origem à terra, o fogo originou o céu e o ar ocupou o espaço entre eles para formar nosso planeta. Ainda segundo o Sefer, o Cosmos é dividido em 3 partes (cada uma delas contendo uma combinação dos 3 elementos primordiais): o mundo (ou, com alguma abstração, o espaço), o ano (tempo) e o homem.
A cabala divide o Universo em 4 planos de existência, divididos hierarquicamente a partir da emanação do Ein Sof até nós. Nessa ordem, teríamos então: o Atziluth (Mundo da Emanação ou das Causas), que recebe a luz diretamente do Ein Sof; o Beri’ah (Mundo da Criação), onde não há matéria e onde moram os anjos de mais alta hierarquia; o Yitizirah (Mundo da Formação), onde a Criação assume forma material; e o Assiah (Mundo da Ação), onde se completa a Criação e se localiza todo o Universo físico e suas criaturas. No sistema luriânico, um quinto mundo é mencionado, acima do primeiro, e que serviria de mediação entre o Ein Sof e o Mundo da Emanação.
Planos superiores
É curioso observar que, na cabala luriânica, desenvolvida no século 16 pelo rabino Isaac Luria, há um conceito que lembra a Teoria do Big Bang. Segundo essa linha cabalística, a primeira ação de Ein Sof para criar o Universo teria sido uma contração sobre si mesmo, que teria provocado uma catástrofe inicial chamada tohu, gerando um vácuo. Em seguida, esse váculo teria sido preenchido com as emanações divinas (de uma maneira explosiva, tendo em vista a grande velocidade dos acontecimentos narrados) e, a seguir, “retificado” nos mundos que você conheceu no parágrafo anterior.
Enquanto estiver no Mundo da Ação, o homem está sujeito a dirigir o corpo físico que lhe foi concedido, mas seu objetivo deve ser sempre o mesmo: aprender e evoluir para ascender aos planos superiores. “O judaísmo acredita que a alma é eterna e subdividida”, diz Alanati. “A vida continua em outras realidades além da nossa, aguardando a ressurreição. A cabala é a única corrente dentro do judaísmo que defende o conceito de reencarnação: algumas almas retornam a este mundo em outro corpo, até acabar de cumprir a sua missão. Ou então elas voltam para nos trazer bênçãos e luz através de seu ser altamente desenvolvido”. Segundo ele, seria possível uma alma atingir o estágio de evolução necessário em uma única vida, mas é comum receber mais algumas chances, num processo de reencarnação que também faz parte dos aprendizados evolutivos.
Segundo a cabala, a alma humana é dividida em 3 partes básicas. A mais “baixa”, chamada nefesh, é a parte animal, responsável pelos instintos e reflexos corporais. Acima dessa estaria ruach, o espírito ou alma média, que contém as virtudes morais e a habilidade de distinguir o que é bom e o que é ruim. A alma alta, neshamah, seria a terceira parte, que representa o intelecto e distingue o homem das outras formas de vida, por permitir a vida após a morte. É a neshamah que permite a percepção da existência de Deus.
Outras duas partes da alma humana são discutidas no Zohar: chayyah, que permite a consciência da força divina, e yehidah, a parte da alma que é alta o suficiente para atingir o maior nível possível de união com o Criador. “A meta é alcançar o propósito para o qual fomos criados: a equivalência de forma com a Força Superior. Todo o trabalho na cabala tem esse objetivo”, resume Marcelo. Na hipótese remota de a humanidade finalmente se unir ao Criador, em uma fusão completa e perfeita, o que aconteceria? O fim do mundo? O começo de uma nova e gloriosa Criação? Bom, isso nem mesmo os mestres cabalistas sabem responder…
VOLTA ÀS ORIGENS
Grupo de jovens israelenses se reúne em uma caverna perto da vila de Beit Meir, em Jerusalém, para estudar a cabala, em maio de 2010. Uma vez por semana, cerca de 12 judeus ortodoxos se encontram nesta caverna perto da cidade sagrada para repetir um ritual antigo: analisar e discutir, por horas a fio, os textos de livros como o Zohar.
FESTA MÍSTICA
Mais de 2 mil estudantes da cabala se reuniram na Times Square, em Nova York, para celebrar a chegada do Ano-Novo Judeu, Rosh Hashana, em setembro de 2001. O canto, a dança e as vestes brancas são típicos de uma nova geração de cabalistas, que considera a festa, a celebração e a alegria tão importantes quanto a meditação e as longas sessões de estudo dos textos antigos.
LADO A LADO
Judeus ortodoxos e soldados israelenses rezam juntos na tumba do rabino Isaac Luria, em Safed, Israel. Luria, um dos mais importantes cabalistas de todos os tempos, foi o responsável pela renovação do misticismo no século 16 com a criação da cabala luriânica e a divulgação de seus ensinamentos para além dos círculos judaicos.
BANHO SAGRADO
Um judeu se banha nas águas geladas da Mikve HaAri, localizada em Safed, Israel. Cabalistas repetem há anos o ritual, prestando homenagem ao rabino Isaac Luria, que teria utilizado as mesmas águas no século 16. Alguns se banham todos os dias, mas o mais comum é realizar o ritual na véspera do Shabat.
SÓ PARA JUDEUS
O cabalista Yitzhak Kadouri segura um exemplar do Zohar na biblioteca de sua casa em Jerusalém, em 2004. Um dos maiores estudiosos contemporâneos da cabala, Kadouri ganhou notoriedade por sua influência política e por suas declarações polêmicas. Em 2004, durante visita de Madonna a Israel, ele se recusou a falar com a cantora, dizendo que “o estudo de cabala é proibido para as mulheres, e também para os que não são judeus”.


A cabala no tempo 
Conheça a evolução da corrente mística judaica, da criação do Universo até os dias de hoje
Criação
Origem – 3700 a.C.
Deus cria Adão. Há quem defenda que ele teria sido o primeiro conhecedor da cabala, obtida diretamente do Criador.
Patriarca – 1800 a.C.
Nasce Abraão, patriarca dos judeus, dos cristãos e dos muçulmanos. Para alguns, ele seria o primeiro conhecedor da cabala.
Êxodo – 1500 a.C.
O profeta Moisés teria recebido a cabala diretamente de Deus no monte Sinai, juntamente com a Torá e os Mandamentos.
Templo – 516 a.C.
É erguido o Segundo Templo em Jerusalém. A chamada Torá Oral é transmitida ao longo dos anos.
Formação
Diáspora – 70 D.C.
Perseguição romana e destruição do Segundo Templo. Segunda diáspora. Cabala é mantida em segredo.
Palácios – Séc. 1
É escrita a coleção de literatura judaica conhecida como Heichalot (“Os Palácios”), que inspirou motivos cabalísticos.
Manuscritos – Séc. 2
É escrito o livro Sefer Yitizirah, a obra mais antiga do chamado esoterismo judaico. Segundo a tradição, é escrito também o Zohar, no idioma aramaico, pelo rabino Shimon bar Yochai.
Título – Séc. 11
O termo cabala passa a ser usado para identificar o misticismo judaico. Não há consenso se o pioneiro nesse uso foi o filósofo judeu Shlomo ibn Gevirol ou o cabalista espanhol Bahya ben Ahser.
Expansão
Redescoberta – Séc. 13
O Zohar é descoberto (ou escrito, segundo alguns estudos) e distribuído pelo escritor judeu-espanhol Moisés de León.
Renovação – Séc. 16
Sábios cabalistas refugiam-se na cidade de Safed, em Israel: entre eles está Isaac Luria, criador da cabala luriânica.
Vivência – Séc. 18
Fundado pelo rabino e místico judeu Baal Shem Tov, o judaísmo hassídico, ramo ortodoxo que prega a vivência mística da fé judaica, populariza uma forma mais simples de cabala no Leste Europeu.
Tradução – Séc. 20
O rabino Yehuda Ashlag, fundador do Kabbalah Centre de Israel, completa em 1922 a primeira tradução do Zohar para o hebraico moderno. Em 1984, Philip Berg funda o Kabbalah Centre de Los Angeles.
Ao acompanhar esta linha do tempo, você vai notar algumas discrepâncias entre o que dizem as tradições judaicas e a opinião dos estudiosos. O caso mais exemplar é o do Zohar: no século 13, Moisés de León distribuiu a primeira versão escrita da obra, alegando que havia encontrado os manuscritos originais, do século 2. Conta-se, porém, que um homem rico ofereceu à viúva de Moisés de León uma alta soma de dinheiro pelos originais. Desolada, ela teria confessado que seu marido era o verdadeiro autor.


Uma verdade, muitos caminhos 
Cada misticismo tem seu próprio método para chegar até a Verdade. Mas a essência é a mesma. Veja aqui as semelhanças e diferenças entre 6 correntes místicas
CABALA
O que é – O misticismo judaico é baseado na crença de que todos os segredos do Universo foram revelados por Deus, de forma codificada, na Torá. Os cabalistas procuram desvendar esses segredos.
Principal texto – Distribuído no século 13 pelo rabino Moisés de León, o Zohar ajuda a explicar os ensinamentos ocultos na Torá.
Principal patriarca – Abraão, embora não haja consenso se o primeiro conhecedor da cabala teria vindo antes (Adão ou Noé) ou depois (Moisés).
Entidade máxima – Ein Sof, o Deus-Infinito, que criou o Universo usando as 22 letras do alfabeto hebraico e as 10 emanações chamadas de sefirot.


GNOSTICISMO
O que é – Gnose é um tipo especial de conhecimento, uma espécie de saber profundo. Ligado à história do cristianismo, o gnosticismo possui elementos pagãos e outros sincretismos.
Principal texto – Escrito por volta do séc. 2, o Pistis Sophia relata os ensinamentos de um Jesus ressuscitado aos apóstolos.
Principal patriarca – Para os gnósticos, Jesus Cristo é o maior mestre de todos os tempos, mas não é considerado o próprio Deus.
Entidade máxima – O Absoluto. Num conceito próximo ao do Ein Sof, Ele também tem emanações, conhecidas como “Æons”.
SUFISMO
O que é – A palavra remete à ideia de pureza. Enquanto o islã crê no encontro com Deus após a morte, o sufismo defende essa possibilidade ainda em vida, por meio de uma experiência mística, chamada irfan.
Principal texto – Escrito no século 11 pelo sábio persa Hujwiri, o Kashf al Mahjub (“Revelando o Velado”) discute os principais conceitos sufistas.
Principal patriarca – O profeta Maomé teria transmitido os ensinamentos sufistas àqueles que poderiam experimentar um encontro com Alá.
Entidade máxima – Seguindo a tradição islâmica, Alá é o único Deus, embora tenha uma coleção de nomes, assim como acontece na cabala.
RAJA IOGA
O que é – Originado no hinduísmo, o raja ioga (“ligação”, em sânscrito) também está presente no budismo e consiste em disciplinas mentais muito além das práticas mais conhecidas no Ocidente.
Principal texto – Os textos hindus conhecidos como Ioga Sutra explicam os meios de atingir o Samadhi, que seria a união completa com Deus.
Principal patriarca – Não tem. Entretanto, uma figura histórica importante é Patañjali, autor dos Yoga Sutra e de outros textos filosóficos.
Entidade máxima – Brahman é para o Ioga a Realidade Eterna, Infinita, Imutável, Origem e Identidade de tudo o que há no Universo.

ZOROASTRISMO
O que é – Misticismo surgido na antiga Pérsia, baseado nos ensinamentos de Zaratustra. Dizem que os iniciados detinham o conhecimento místico necessário para dominar as forças da natureza.
Principal texto – Chamado Gathas, traz versos que exploram a essência divina da Verdade, da Mente Sadia e do Espírito de Justiça.
Principal patriarca – O profeta Zaratustra (ou Zoroastro) viveu em algum momento entre os séculos 16 e 10 a.C. e teria sido o autor do Gathas.
Entidade máxima – Chamado por Zaratustra de “o Deus não criado”, por ser a origem de tudo, Ahura Mazda é onisciente, mas não onipotente.

TAO
O que é – Profundamente dualista, o tao prega o caminho do equilíbrio entre os eternos opostos. Viver em harmonia, agindo com sutileza por meio do “não agir” (wu-wei), seria a chave para atingir o Tao.
Principal texto – O Tao Te Ching (“Livro do Caminho e da Virtude”) serviu de inspiração não só para o taoismo, mas também para o zen-budismo.
Principal patriarca – Autor do Tao Te Ching, o reverenciado Lao Tsé (o nome significa Velho Mestre) é envolto em mistérios.
Entidade máxima – Verdadeira natureza do Universo, o Tao o precede e o abarca completamente. Não personificado, confunde-se com o próprio Caminho.

Todos os nomes da cabala

Para entender a evolução da cabala, é fundamental conhecer os personagens que ajudaram a escrever essa história: um místico judeu que passou 13 anos vivendo em uma caverna, encontrou a iluminação e saiu de lá para apresentar a cabala ao mundo; um rabino espanhol que levou fama de falsário ao divulgar, na Europa medieval, cópias do Zohar; o Leão da cabala, que renovou a tradição mística judaica e foi considerado um visionário; e a família americana que rompeu com um costume milenar ao tornar a cabala acessível a pessoas de qualquer credo.

Texto Michelle Veronese
Shimon bar Yochai
Quem foi – Uma figura lendária ou um sábio de carne e osso que viveu na Judeia do século 2? O rabino Shimon bar Yochai é um dos personagens mais conhecidos da cabala: seu nome tem sido mencionado, geração após geração, em narrativas orais, além de estar presente nos registros do Talmud (livro de comentários e interpretações sobre a Torá). Conta-se que ele vivia na Judeia na época em que essa região era uma província do Império Romano. Os judeus sofriam com a falta de liberdade religiosa e o rabino, inconformado, fazia críticas contundentes ao então imperador Adriano. Por causa disso, teria sido condenado à morte, mas escapou ao se esconder em uma caverna nas montanhas da Galileia, ao lado do filho Elazar. Segundo conta a tradição, os dois teriam vivido reclusos durante 13 anos: Shimon aproveitou a situação para orar, meditar e mergulhar em profundos questionamentos espirituais. Até que, certo dia, teria recebido os ensinamentos da cabala diretamente do profeta bíblico Elias.
O que fez pela Cabala – Foi o primeiro mestre a ensinar publicamente essa tradição, segundo os cabalistas. Conta-se que, após a morte do imperador Adriano, ele saiu da caverna e se espantou com o mundo que viu. “Como as pessoas podem se envolver nos afazeres desse mundo e esquecer os assuntos do outro mundo?”, perguntou ao filho. Foi aí que decidiu passar adiante os ensinamentos que recebera de Elias. Reuniu os primeiros discípulos e falou sobre Deus, a origem do mundo e a criação dos seres humanos. Mais tarde, quando estava prestes a morrer, teria sintetizado, com a ajuda dos alunos, todos os seus conhecimentos: eles foram compilados em manuscritos que percorreriam o mundo com o nome de Zohar. Estudiosos discordam dessa versão, dizendo que o livro só foi produzido séculos depois, na Idade Média, pelo rabino espanhol Moisés de León.
Como é lembrado – É considerado um dos mais importantes sábios do judaísmo. Sua história e seus feitos são descritos no Zohar e no Talmud. O aniversário de sua morte é celebrado no feriado de Lag Baomer, em maio. Na ocasião, milhares de judeus visitam seu túmulo em Safed, na região norte de Israel, e acendem velas para homenagear o homem que teria trazido a luz da cabala para o mundo.
Moisés de León
Quem foi – Nascido de uma família humilde em 1250, Moisés de León passou os primeiros anos de vida entre León, Guadalajara e Ávila, na Espanha. Depois de se tornar rabino, desenvolveu um forte interesse pela literatura mística judaica. Escreveu diversos textos sobre o assunto, mas nada que chamasse a atenção dos sábios judaicos. A fama só chegou quando, certo dia, ele passou a distribuir manuscritos em aramaico para os seus colegas. Indagado sobre a origem do material, Moisés teria dito que eram trechos copiados do Zohar, o livro cabalista atribuído ao rabino Shimon bar Yochai, que teria vivido no século 2.
O que fez pela Cabala – Quando Moisés de León disse que havia descoberto os manuscritos originais do famoso Livro do Esplendor, provocou furor entre os estudiosos. Alguns comemoravam a descoberta, que consideravam histórica. Outros passaram a acusá-lo de falsário: afinal, o rabino jamais mostrou os originais a quem quer que fosse. Hoje, a maior parte dos estudiosos acredita que ele é o verdadeiro autor dos manuscritos. E há quem argumente que o material apresentado por ele foi escrito em parceria com outros cabalistas da Idade Média. Seja como for, sua contribuição para a tradição mística do judaísmo é inquestionável.
Como é lembrado – Moisés não ganhou memorial, feriado ou homenagem póstuma. A fama de falsário rondou seu nome por muito tempo. No século 16, os manuscritos que ele fez circular na Espanha foram finalmente reunidos e impressos em forma de livro. O Zohar, o Livro do Esplendor, passou a circular o mundo e, desde então, é considerada a obra fundamental da cabala.
Isaac Luria
Quem foi – Descendente de uma família alemã, Isaac ben Solomon Luria nasceu em Jerusalém em 1534. Depois de perder o pai ainda criança, foi morar com o irmão de sua mãe na cidade do Cairo, no Egito. Rabino, o tio de Isaac apresentou a ele as principais obras da literatura sagrada judaica. Conta-se que o menino passou a ler a Torá e, em pouco tempo, já discutia com os adultos as tradições judaicas. Aos 15 anos, Isaac casou com sua prima e foi morar numa pequena ilha no rio Nilo. Diz a lenda que, nessa época, um exemplar do Zohar foi parar em suas mãos. Ele teria ficado tão impressionado que passou a se dedicar inteiramente ao seu estudo.
O que fez pela Cabala – Aos 36 anos, Isaac mudou-se para a cidade israelense de Safed, que havia se transformado na capital mundial da cabala ao receber os judeus expulsos da Espanha na época da Inquisição. Permaneceu ali pouco mais de dois anos, tempo suficiente para renovar o misticismo judaico. Responsável pela criação de uma nova linha da cabala, chamada de luriânica, introduziu a ideia do tikum (“reparo”), segundo a qual a luz divina, no momento da criação, estilhaçou-se em partículas que permearam o mundo material. A tarefa dos seres humanos seria libertar essas centelhas, para que elas retornassem à sua origem.
Como é lembrado – Falecido em 1572, Isaac deixou poucos escritos. Mas a maior parte de seus ensinamentos foi registrada por discípulos como o rabino Chaim Vidal. Quando esses escritos ganharam o mundo, Luria passou a ser visto como um visionário.

Família Berg
Quem são – Juntos, Philip, Karen, Yehuda e Michael Berg são os responsáveis pelo Kabbalah Centre International, uma rede com 50 centros de estudo de cabala espalhados pelo planeta. Shraga Feivel Gruberger é o verdadeiro nome de Philip. Nascido em 1929 em Nova York, aos 21 anos ordenou-se rabino. Casou, teve 8 filhos e passou a levar uma vida pacata como vendedor de seguros no bairro do Brooklyn. Até que, em 1962, decidiu mudar tudo, separou-se da mulher e partiu para Israel. Na terra de seus ancestrais, ele conheceu o Kabbalah Centre original, do qual se tornaria diretor em 1971. Em 1984, decidiu levar a ideia para os EUA, fundando o Kabbalah Centre de Los Angeles ao lado da segunda esposa, Karen. Mais tarde, os filhos Michael e Yehuda passariam a comandar o negócio, ajudando a expandir a instituição para o resto do mundo (com direito a dois endereços no Brasil, no Rio e em São Paulo). Porta-voz da cabala pop, Yehuda Berg acabou atraindo para o centro celebridades como a cantora Madonna e a atriz Demi Moore, que ajudaram a popularizar ainda mais a cabala.
O que fizeram pela cabala – A família Berg criou uma versão pop do misticismo judaico. Durante muito tempo, a tradição era transmitida apenas a seletos grupos de iniciados – judeus com mais de 40 anos que tinham comprovado conhecimento da literatura sagrada. Philip, o pai, rompeu com essa aura secreta e passou a ensinar a cabala a quem desejasse. De acordo com a sua visão, os ensinamentos da cabala podem ser simplicados e aplicados em situações práticas, para resolver problemas profissionais, familiares ou mesmo de saúde.
Como serão lembrados – Ainda é cedo para dizer. Por enquanto, eles dividem opiniões: há quem veja seus feitos com admiração; outros, com desconfiança. Os admiradores aplaudem a coragem da família Berg em tirar a cabala de seu círculo fechado e traduzir esses ensinamentos para o público leigo. Já os críticos torcem o nariz para a roupagem de autoajuda que eles imprimiram à tradição judaica. A comercialização de produtos pelo Kabbalah Centre também provoca polêmica: há quem diga que seus donos faturam alto com a venda de amuletos e bebidas milagrosas. Que os Bergs têm um lugar cativo na história da cabala, ninguém duvida. Mas só o tempo vai dizer se serão lembrados como heróis ou vilões.

Por dentro do Zohar

Uma aventura mística, repleta de figuras bíblicas e seres celestiais: assim é o Zohar, livro essencial para quem pretender mergulhar nos mistérios da cabala. Não se trata, porém, de uma leitura fácil. Para tentar entender a origem do Universo e a natureza de Deus, é preciso decifrar um texto intrincado - e, por isso mesmo, fascinante.

Texto Michelle Veronese
Shimon bar Yochai estava sentado no chão batido, dentro de uma caverna. Ao lado dele, o filho Elazar e 8 jovens, seus mais aplicados discípulos, aguardavam o que o rabino tinha a dizer. Durante 13 anos, Shimon havia vivido isolado naquela mesma caverna, para escapar da perseguição do Império Romano, que o havia condenado à morte. Ali, aprendeu os segredos ocultos da Torá, a bíblia hebraica, ensinados a ele diretamente pelo profeta Elias. O sábio, agora livre, havia decidido que era hora de passar adiante esses ensinamentos. Munidos de pergaminho, seus alunos anotavam tudo o que ele dizia. “Todos os dias de minha vida esperei por este momento. Meu desejo hoje foi coroado.” Assim começou a ser escrita a mais famosa aventura mística da tradição judaica, uma história repleta de símbolos, metáforas e mistérios: o Zohar, também conhecido como o Livro do Esplendor.
O que você acabou de ler pode até ser verdade. Mas é bem mais provável que se trate de uma bela lenda, passada de mestre para discípulo durante gerações e gerações de cabalistas. Afinal, ninguém jamais viu os tais manuscritos em aramaico que teriam resultado dessas sessões entre Yochai e seus discípulos no século 2. O Zohar só voltaria à tona muito tempo depois, já no século 13, pelas mãos do rabino espanhol Moisés de León. Naquele período, o esoterismo florescia na Europa e muitos judeus se interessavam por obras que propunham uma visão mística sobre a origem do Universo. Moisés era um deles.
Ele apresentou aos grupos esotéricos uma série de manuscritos que seguiam essa linha, propondo uma leitura alternativa da Torá. Os escritos, segundo ele, eram trechos copiados do Zohar original, aquele mesmo, escrito pelos alunos de Yochai. Como eles teriam ido parar nas mãos de León, ninguém sabe. E, já que o espanhol jamais mostrou os originais, a dúvida permanece até hoje. Mas, para muitos estudiosos, a prova final está na própria linguagem dos manuscritos: segundo eles, o vocabulário e a gramática do livro são muito diferentes do aramaico típico do século 2.
Durante muito tempo, os manuscritos foram comercializados apenas na forma de brochuras. Foi só no século 16 que o Zohar virou livro: na cidade italiana de Mântua, em 1558, foi impressa a primeira cópia, seguida pela edição de Cremona, de 1560. Poucos anos depois, a obra estaria no centro das discussões dos cabalistas reunidos em Safed, Israel: o mestre Isaac Luria deu especial atenção ao Zohar, usando-o como base em suas aulas na Academia da Cabala. Em 1922, o livro seria traduzido para o hebraico moderno pelas mãos de Yehuda Ashlag. Durante o século 20, ganharia várias traduções para o inglês, a maioria delas parcial – afinal, a obra completa tem cerca de 1 700 páginas. Não existe uma versão completa para o português, mas é possível encontrar diversos livros que analisam seu conteúdo (veja matéria na página 66).
Com a popularização da cabala, a partir dos anos 80, muitos leigos passaram a se interessar pelo Zohar. Entender o que está escrito ali, porém, não é fácil. “Não se pode estudar o livro de forma independente”, diz David Zumerkorn, autor do livro Numerologia Judaica e Seus Mistérios. “É preciso ter conhecimento de distintas áreas da tradição judaica”, diz. À primeira vista, o Livro do Esplendor parece um grande romance. Os protagonistas são o rabino Shimon, seu filho Elazar e seus 8 discípulos. O cenário é a Terra Santa, onde os personagens transitam e encontram figuras bíblicas e seres celestiais. Mas, apesar do tom de aventura, a narrativa não tem nada de linear. A linguagem é repleta de metáforas, palavras de duplo sentido e neologismos. Fascinante, sim, mas quase impenetrável.
Em determinados trechos, o livro assume uma linguagem erótica: de acordo com o Zohar, Deus é igualmente macho e fêmea: a grande tarefa do homem seria promover a união sagrada entre o casal. Mas um dos maiores enigmas está no trecho que fala da criação do Universo. Na versão original do Gênese, o texto era “No princípio, Deus criou o céu e a terra”. Já o Zohar conta a história de modo diferente: “No começo, o Deus-Infinito (Ein Sof) criou Deus, o céu e a terra”. Complicado? Você nem imagina…
Livro sagradoPágina de abertura da primeira edição impressa do Zohar, publicada na cidade italiana de Mântua, em 1558. Antes disso, o livro era comercializado apenas na forma de brochuras, nas quais os manuscritos apareciam fora de ordem. Só com a impressão o Livro do Esplendor ganhou seu formato definitivo.

Códigos secretos

Contas, equações, gráficos e tabelas: para alguns estudiosos, essa é a única maneira de decifrar os mistérios escondidos na Torá. Usando as antigas técnicas de numerologia judaica, seria possível desvendar segredos históricos e entrar em contato com a sabedoria divina.

Texto Wilson Weigl
Quem pretende estudar a fundo a cabala corre o risco de tropeçar em uma série de tabelas e códigos aparentemente indecifráveis. São sequências intermináveis de números e letras hebraicas, equações complexas, diagramas e gráficos de todos os tipos. Bom, diria você, se Deus queria revelar seus mistérios aos homens, não poderia ter facilitado um pouco as coisas? Aparentemente, não. Na verdade, o que acontece é o inverso disso. Para penetrar nos mistérios da cabala, é necessário um bocado de tempo, estudo e… bons conhecimentos de matemática.
Explica-se: uma das principais fontes de ensinamentos da cabala é a Torá, a bíblia judaica. Acontece que não basta estudar o texto com atenção, buscando todas as camadas de significado contidas ali. É preciso ir além, fazendo uso da guematria, ou numerologia judaica. Segundo os cabalistas, a principal chave para desvendar os mistérios divinos estaria na combinação das letras do alfabeto hebraico com determinados números. “Do ponto de vista da religião judaica, tudo o que existe, existiu ou vai existir está na Torá. A guematria é uma ferramenta que possibilita decifrar esse conhecimento infinito contido nos textos”, explica David Zumerkorn, professor do Centro de Cultura Judaica e autor de um dos poucos livros disponíveis sobre guematria em português, Numerologia Judaica e Seus Mistérios (Editora Maayanot).
Não é de espantar que as letras hebraicas estejam na base da guematria. Afinal, na visão dos cabalistas, Deus criou o mundo usando as 22 letras do alfabeto hebraico – é o que diz o Sefer Yitizirah, ou Livro da Criação, uma das obras fundamentais dessa corrente mística. Vistas dessa maneira, as letras são muito mais do que simples rabiscos no papel: são representações gráficas das 22 energias primárias que, combinadas, originaram o mundo. “O Gênese já dizia que o verbo divino foi o instrumento da Criação: Deus disse ‘Haja luz’, e houve luz. A novidade do Sefer Yitizirah é especular em detalhes como Deus combinou essas letras”, diz o pesquisador Daniel C. Matt no livro O Essencial da Cabala.
Para efetuar os cálculos, a numerologia judaica atribui um valor numérico a cada uma das 22 letras do alfabeto hebraico: as primeiras 9 valem de 1 a 9; as 9 seguintes, de 10 a 90; e as restantes, 100, 200, 300 e 400 (veja tabela na página ao lado). Por meio de diversos tipos de operações matemáticas (como somatórias, divisões e elevações ao quadrado, entre outras), obtêm-se surpreendentes revelações sobre o significado de nomes, palavras e versículos inscritos na bíblia judaica. Mas, em termos práticos, para que serviria esse conhecimento? “A Torá encerra uma sabedoria infinita e enciclopédica que se aplica a todas as áreas da existência. É um guia para viver com amor, paz e harmonia”, afirma Zumerkorn. “Da mesma forma que precisamos de um telescópio para observar as estrelas ou um microscópio para enxergar uma bactéria, a guematria permite acessar esse conhecimento que não está visível a olho nu.”
Fatos históricos
Para ter acesso a tanta sabedoria, é preciso explorar as mais variadas combinações entre as 304 803 letras impressas na Torá. Não é à toa que, hoje em dia, muitos estudiosos recorrem a programas de computador para fazer isso. Os cálculos trazem resultados surpreendentes: segundo alguns cabalistas, é possível encontrar referências a fatos históricos como o Holocausto e o assassinato do presidente de Israel, Yitzhak Rabin, em 1995. Outros usam a numerologia para reinterpretar antigas histórias das escrituras, como aquela em que Deus teria ordenado a morte dos habitantes da nação inimiga Amalek. Segundo a cabala, a palavra Amalek teria o mesmo valor numérico que a palavra “incerteza”, em hebraico. Daí que a ordem de Deus não seria para matar os inimigos, mas sim as incertezas.
Uma das técnicas usadas pela numerologia judaica é a Sequência Alfabética Equidistante (SAE). Por esse método, o leitor deve “saltar” letras a distâncias previamente determinadas, formando assim novas palavras. O mais incrível é que costuma dar certo. Em seus estudos, Zumerkorn descobriu que, se você saltar de 50 em 50 letras, dentro do texto bíblico, vai encontrar a palavra Torá 32 vezes. O número 32 é um dos mais importantes dentro da tradição do judaísmo, já que é o resultado da soma das 22 letras hebraicas com as dez sefirot (“esferas”) da Árvore da Vida. Para os estudiosos, nada está ali por acaso: cada letra tem uma posição única e especial. “Se eventualmente uma letra se apagasse ou se fundisse com outra, todo o texto perderia sua santidade e seus mistérios ocultos”, diz o estudioso.
A interpretação da Torá segundo a guematria foi difundida pela primeira vez por mestres citados na Mishná (uma das obras fundamentais do judaísmo rabínico), que viveram entre os anos 100 e 200. Mais tarde, a técnica seria muito usada na Idade Média, quando alcançaria círculos fora do judaísmo. Com a crescente popularização da cabala, nos séculos 16 e 17, cada vez mais estudiosos se dedicaram a decifrar os códigos numéricos. Por fim, nas últimas décadas, a numerologia judaica foi apropriada pela chamada cabala pop, ganhando um forte caráter de autoajuda.
Exemplos de aplicações práticas da guematria não faltam. Segundo os defensores da cabala pop, a energia irradiada pelas 22 forças universais da Criação poderia ser usada para resolver problemas cotidianos: para isso, bastaria passar as mãos sobre as letras hebraicas. Yehuda Berg, um dos nomes mais conhecidos da cabala moderna, fez sucesso com um livro que prometia curar doenças usando os 72 nomes de Deus (veja boxe na página anterior). Também há quem aproxime a numerologia judaica da ocidental, usando seus cálculos para determinar as características de uma pessoa por meio da análise do nome. Uma diferença crucial entre os dois métodos é que a guematria leva em conta não apenas o número do nome do indivíduo mas também o de sua mãe. Mas não esqueça: antes de fazer a soma, é preciso fazer a transliteração dos nomes para o hebraico.
Todas essas aplicações, porém, são minúsculas se comparadas às possibilidades infinitas de interpretação da Torá. Segundo Zumerkorn, os mistérios da bíblia judaica estão longe de ser totalmente elucidados. “Ainda há muito o que estudar, mas está tudo ali, disponível”, diz o cabalista, que traça um paralelo entre o conhecimento da Torá e as grandes invenções humanas. “Veja o que aconteceu com a roda, a eletricidade e os antibióticos, por exemplo. A informação que propiciou a descoberta sempre esteve ali, oculta. Até que finalmente alguém a acessou”, diz. “Tudo o que a humanidade precisa saber está na Torá. Se alguém não encontra o que procura, é porque não soube achar”, diz.

DEUS TEM MUITOS NOMES
Nas escrituras sagradas dos judeus, encontram-se 72 nomes para o Criador, formados pela combinação de 3 letras (na gravura acima, os nomes aparecem em 72 línguas diferentes). “Cada um deles expressa um atributo ou qualidade da natureza divina”, explica David Zumerkorn. A origem dos nomes estaria no capítulo 14 do Livro do Êxodo, que descreve o momento em que Deus abriu o mar Vermelho para a passagem dos judeus. Os 3 versículos que contam o fenômeno – 19, 20 e 21 – têm 72 letras cada um. Para obter o primeiro nome de Deus, junta-se a primeira letra do versículo 19, a última do 20 e a primeira do 21. Consegue-se a segunda com a segunda letra do 19, a antepenúltima do 20 e a segunda do 21, e assim sucessivamente. Recentemente, a cabala pop se apropriou desse conhecimento, com o lançamento do livro Os 72 Nomes de Deus, de Yehuda Berg. Na obra, o diretor do Kabbalah Centre International sugere que é possível usar esses nomes para curar algumas doenças e melhorar o desempenho sexual.

As palavras 
Usando a guematria, é possível achar significados intrigantes para as palavras na língua hebraica. Confira a tabela com os números correspondentes às letras e exemplos de suas aplicações.
(O texto NÃO consta deste banco de dados)
Os números Alguns algarismos são especialmente relevantes para a guematria. Conheça as características desses números pra lá de poderosos

1 O verdadeiro e único Deus.
2 Representa o dualismo existente no Universo: dia e noite, claro e escuro, bem e mal, positivo e negativo, e assim por diante.
3 União dos significados do 1 com o 2, representa a ligação da criatura com o Criador, e também o equilíbrio entre os elementos da natureza.
4 Número especial nas leis e costumes judaicos. Simboliza o dia em que Deus descansou após sua obra e também a pausa do Shabat, o 7º dia. Ligado a assuntos sentimentais.
8 Número transcendental, funciona como um portal para outra dimensão.
9 Representa a verdade, a eternidade, o bem e a união de um homem e uma mulher para trazer uma nova alma ao mundo físico.
10 Considerado um número perfeito, que atrai a presença divina, faz referência às 10 sefirot da Árvore da Vida, aos 10 Mandamentos e a outras manifestações sagradas.
26 Valor do nome mais elevado de Deus (Havaie), que o coloca acima de toda a natureza.
32 Um dos números de maior significado no judaísmo, é o resultado da soma das 22 letras do alfabeto com as 10 sefirot. É também o valor da adição da 1a letra da Torá (Bet, 2) com a última (Lamed, 30). “Representa as duas pontas de um fio”, explica David Zumerkorn.
100 O patamar mais elevado da perfeição, a combinação dos mais altos níveis intelectuais e emocionais.

Safed, cidade sagrada

Para os cabalistas, não há lugar mais especial do que Safed, em Israel. Foi ali que um grupo de sábios decidiu se estabelecer no século 16, após a expulsão dos judeus da Espanha durante a Inquisição. Hoje, a cabala é celebrada em festas e rituais que lembram os mestres do misticismo judaico.

Texto Cláudia Proushan
A HISTÓRIA DA CABALA ESTÁ PRESENTE NAS SINAGOGAS, NAS RUAS E NAS FESTAS DA REGIÃO.Para quem chega à cidade, a primeira surpresa é descobrir que ela tem vários nomes: Safed, Zefat e Tzfat são apenas alguns deles. A segunda é perceber que, num lugar tão pequeno, convivem lado a lado cristãos, árabes, muçulmanos e judeus. Em Safed, uma das 4 cidades sagradas de Israel (as outras são Jerusalém, Hebron e Tibérias), você respira história: cada pedra no caminho conta a trajetória dos sábios judeus que se refugiaram na cidade no século 16, transformando-a na capital mundial da cabala. Um programa obrigatório é ir até o Cemitério de Sefat e visitar o túmulo de Isaac Luria, o mestre cabalista que renovou o misticismo judeu. Também é fundamental conhecer as duas sinagogas dedicadas a Luria: Ari Ashkenazi, no centro velho, e Sepharadic, ao lado do cemitério. Por fim, vale a pena subir o monte Meron, onde foi enterrado o rabino Shimon bar Yochai, sábio do século 2 a quem é atribuída a autoria do Zohar, obra mais importante da cabala. Lá acontece uma vez por ano, em maio, a festa de Lag Baomer: milhares de pessoas cantam e dançam para celebrar o aniversário da morte do mestre.
JOVENS CABALISTAS, ATELIÊS E GALERIAS DE ARTE CONFEREM UM CLIMA VIBRANTE À CIDADE.Engana-se quem acha que apenas os mais velhos dedicam seu tempo aos antigos ensinamentos da cabala. Andando pelas ruas de Safed, você encontra desde homens vestidos com paletós pretos compridos e barbas enormes até grupos de jovens vestidos com túnicas brancas – estes últimos são os seguidores do rabino Nachman de Breslev (1772-1810), bisneto de Baal Shem Tov, fundador do hassidismo – variante ortodoxa do judaísmo que ensina uma versão simplificada da cabala. Alegres e festivos, esses jovens complementam a meditação e as longas horas de estudo com celebrações regadas a canto e dança. Quem quer mergulhar ainda mais na cultura da cabala deve circular pelas vielas de paredes brancas, onde estão instaladas dezenas de galerias de arte e ateliês – um dos mais bacanas é o do artista plástico David Friedman, que tem lindas aquarelas com motivos cabalísticos. Também vale a pena dar uma garimpada nas lojinhas, que vendem desde Árvores da Vida coloridas até joias com letras hebraicas. Para mais informações turísticas sobre a cidade, vale a pena consultar o site safed.co.il.

Sabedoria para todos

Nas duas últimas décadas, a cabala deixou de ser um privilégio de poucos e ganhou o mundo. Mas será que as lições pregadas pelos novos cabalistas são as mesmas ensinadas pelos sábios judeus nos porões da Idade Média?

Texto Thaís Cavalheiro
A cabala está na moda. Nas livrarias, best sellers prometem curar doenças usando letras hebraicas, mudar sua vida por meio de rituais cabalísticos ou descobrir o significado do seu nome usando a numerologia judaica. Em revistas e programas de televisão, celebridades anunciam que aderiram à onda: Madonna conta aos jornalistas que a cabala mudou sua vida; Winona Ryder é vista usando uma pulseira de lã vermelha, o amuleto cabalístico que espanta o mau-olhado; Ashton Kutcher posa feliz ao lado de Yehuda Berg, diretor de um centro de estudos da cabala em Los Angeles. Na internet, sites oferecem produtos como o Kabbalah Energy Drink, que garantiria energia para enfrentar todos os obstáculos do dia a dia. Em lojinhas nos shoppings, dá para encontrar desde Árvores da Vida de madeira até pingentes com letras em hebraico talhadas em ouro.
Nunca, em toda a história, a cabala foi estudada e discutida por tanta gente, em tantos lugares diferentes. Na visão de alguns cabalistas, isso é motivo de comemoração, já que os ensinamentos cabalísticos, para eles uma fonte de autoconhecimento e bem-estar, estariam finalmente ao alcance de todos. Para outros, causa preocupação: segundo os mais conservadores, essa “nova cabala” seria uma diluição perigosa de textos complexos, que só poderiam ser entendidos depois de muito estudo, com o auxílio de um mestre.
A discussão, na verdade, é antiga. Há séculos, estudiosos e leigos tentam responder a uma simples pergunta: afinal, a cabala é um conjunto de ensinamentos sofisticados que só pode ser estudado e entendido por um grupo seleto de sábios, ou uma sabedoria universal, que pode e deve ser divulgada para o maior número de pessoas possível? A história parece apontar para a primeira alternativa, já que, durante séculos a fio, o acesso à cabala ficou restrito a algumas dezenas de pessoas, quase sempre judeus com mais de 40 anos e amplos conhecimentos da tradição religiosa. Mesmo assim, não foram poucos os que se esforçaram para acabar com essas proibições e tornar essa corrente mística mais acessível ao público leigo.
Faz sentido que, no início, a cabala fosse mesmo para poucos. Afinal, quem estivesse interessado no misticismo judeu deveria, para começo de conversa, dominar o aramaico, língua usada no Sefer Yitizirah e no Zohar, as duas obras fundamentais da cabala. Além disso, teria que estudar a guematria, complicadíssimo sistema que associa letras e números, essencial para decodificar os segredos contidos na Torá, a bíblia judaica. E ainda ter um mínino conhecimento das tradições do judaísmo, para entender os símbolos e as metáforas contidos nesses 3 livros.

DOS PORÕES À INTERNET
O primeiro movimento no sentido de uma popularização foi a publicação, no século 16, da primeira versão impressa do Zohar, antes disponível apenas em brochuras. Com o livro sagrado na mão, dois rabinos tratariam de difundir os ensinamentos do misticismo: tanto Moisés Cordovero quanto Isaac Luria contribuíram decisivamente para divulgar a cabala além dos círculos ortodoxos judaicos. No século 18, foi a vez de o rabino Baal Shem Tov fundar o judaísmo hassídico, que incorporou uma forma mais simplificada da cabala.
Claro, nada disso se compara ao que aconteceria no século 20. Com a tradução do Zohar, primeiro para o hebraico e depois para o inglês, os ensinamentos ganharam o mundo. Logo, seria possível ler trechos do livro sagrado na internet – onde também pipocavam sites com cursos e aplicações práticas da cabala. Nos anos 80, surgiria o maior empreendimento dedicado à cabala: o Kabbalah Centre International, criação da família Berg (veja matéria na página 13). Tudo começou com uma simples unidade, em 1984, em Los Angeles. Aos poucos, porém, o centro foi ganhando notoriedade, com a adesão de celebridades como Madonna e David Beckham. Hoje, a organização comandada pelos irmãos Yehuda e Michael Berg conta com 50 centros espalhados pelo planeta (dois deles no Brasil) e 3 milhões de alunos em todo o mundo.

SABEDORIA UNIVERSAL
Esses números fariam os patriarcas hebreus e os cabalistas medievais se revirar na tumba – afinal, para eles, o segredo era a alma do negócio. Mas será que a cabala tão divulgada hoje é a mesma estudada na Idade Média pelos sábios judeus? “O conhecimento é um só, venha ele dos novos autores, venha ele dos livros da tradição judaica”, diz Yonatan Shani, diretor do Kabbalah Centre do Brasil. “Estamos falando de uma sabedoria universal, que está na essência de todas as religiões. Deixar de compartilhar esses ensinamentos seria um crime.”
Nem todos são da mesma opinião. “A cabala não é para qualquer um”, diz David Zumerkorn, autor do livro Numerologia Judaica e Seus Mistérios (Editora Maayanot). “Trata-se da interpretação espiritual da Torá, o livro mais sagrado do judaísmo. Só quem conhece aramaico ou hebraico é capaz de interpretar as sagradas escrituras e compreender os ensinamentos nelas ocultos.” Segundo ele, boa parte dos cursos que existem por aí ensina qualquer coisa, menos cabala. “A maior parte deles ensina lições de moral e ética baseadas no Talmud, texto sagrado judaico que funciona como um complemento para a Torá. Não há nada de mau nisso. Mas é bem diferente dos verdadeiros ensinamentos do Zohar.”
Mesmo os que defendem a cabala pop, como o rabino Yehuda Berg, admitem que os ensinamentos foram “simplificados” a fim de se tornarem acessíveis para as pessoas comuns (veja entrevista na página 48). O resultado, dizem os críticos, fica no limite entre a literatura religiosa e a autoajuda. “O conceito de autoajuda é bastante discutível”, diz Shani. “Não vendemos a cabala como receita para conseguir bens materiais, amor, sucesso e saúde. Todos querem alcançar a plenitude da vida. Para isso, precisam aprender a lidar com as dificuldades e os desafios do dia a dia, e isso só será possível por meio da transformação pessoal. E é esse o caminho que a cabala nos aponta. Quer chamar de autoajuda? Tudo bem, mas não acho essa a definição mais adequada.”
Uma coisa é certa: já vão longe os tempos em que os judeus eram obrigados a se esconder em porões para discutir a cabala. O acesso à informação está garantido. Resta saber como ele será usado por esses cabalistas em potencial. “Não é bom que uma doutrina que soma mais de 2 mil anos seja convertida em mais um produto, mera comercialização da sabedoria judaica”, diz Ian Mecler, escritor de livros como O Poder de Realização da Cabala. Ele reconhece, no entanto, o lado positivo da popularização: “Pode ser que isso leve a um desejo de maior aprofundamento no assunto. E daí as pessoas descubram a verdadeira essência da sabedoria judaica”.

Em defesa da cabala pop

Ele pode ser visto circulando ao lado de gente como Madonna e Britney Spears. Já foi eleito pela revista Newsweek um dos 5 rabinos mais influentes dos EUA. Comanda, ao lado do irmão, uma rede com 50 centros de cabala espalhados pela planeta. Conheça Yehuda Berg, o porta-voz da cabala pop.

Entrevista Marisa Adán Gil
Garoto-propaganda da cabala, um dos rabinos mais influentes dos EUA, um charlatão em busca de dinheiro fácil. Yehuda Berg já foi chamado das 3 coisas, e muito mais. Para alguns, o cabalista de 35 anos estaria fazendo história ao tornar os ensinamentos da cabala acessíveis para milhares de pessoas no mundo todo. Para outros, ele estaria esvaziando todo o sentido da antiga sabedoria judaica, transformando-a em uma coleção de lições de moral para consumo rápido. Ou, como preferem alguns, McMisticismo.
Uma coisa é certa: Berg é hoje um dos maiores responsáveis pela divulgação da chamada “cabala pop”, que tem como especialidade transformar o simbolismo místico judeu em aplicações práticas para solucionar problemas no dia a dia. Ao lado do irmão, Michael, Yehuda comanda o Kabbalah Centre International, com 50 centros de estudo da cabala espalhados pelo mundo e cerca de 3 milhões de alunos. Celebridades como Madonna, Demi Moore ou Susan Sarandon não tomam nenhuma decisão sem consultar o mestre cabalista (ou algum de seus associados). Escritor assíduo, já lançou mais de 20 livros, entre eles os best sellers O Poder da Cabala (Imago), Os 72 Nomes de Deus (Rocco) e A Vida Manda Ver (Contraponto).
Espécie de porta-voz da cabala “light”, Berg vive viajando pelo mundo em busca de adeptos: em maio deste ano, esteve no Brasil para divulgar um novo livro e aproveitou para fazer palestras no Rio e em São Paulo. “Há um grande despertar espiritual acontecendo no Brasil”, diz Berg. “Os brasileiros são muito fiéis às suas crenças, mas ao mesmo tempo estão abertos a outros ensinamentos. Dessa maneira seguem, sem saber, dois princípios importantes da cabala moderna: inclusão e não julgamento.” Na entrevista a seguir, o diretor do Kabbalah Centre fala sobre misticismo, religião, autoajuda e caos.

Qual a importância da cabala no mundo de hoje?
De uma maneira geral, a sociedade evoluiu muito nas últimas décadas. Tivemos avanços na medicina, na tecnologia, nas áreas política e social. Mas ainda há muito caos nesse mundo. E isso faz com que as pessoas saiam atrás de respostas para suas inquietações: um dos lugares onde encontram amparo é a cabala. Eu acredito que, fazendo uso da cabala, podemos promover mudanças importantes no planeta. É claro que não é possível consertar o caos, mesmo porque os problemas que estamos enfrentando levaram anos para ser criados. Vai levar muito tempo para conseguirmos mudanças mais profundas. Mas, como indivíduos, podemos começar consertando a nós mesmos. E é nisso que a cabala pode ajudar.
Por um longo tempo, os ensinamentos da cabala estiveram restritos a um pequeno grupo, geralmente estudiosos judeus com mais de 40 anos. Hoje, a cabala está em todo lugar: na internet, nos livros de autoajuda, em centros de estudo como o Kabbalah Centre. Como isso aconteceu?
Bem, não é só a cabala que está em todo lugar. Todas as informações estão mais disponíveis, já que você pode encontrar qualquer coisa online. Mas acredito que o surgimento do Kabbalah Centre, em 1984, é em grande parte responsável por essa popularização. Meu pai, que fundou o centro, acreditava que estava na hora de a cabala ser revelada para o mundo. E é isso que estamos fazendo. Também acho que é uma questão de timing: na minha opinião, essa sabedoria nunca foi tão necessária quanto agora. O mundo precisa de ensinamentos espirituais fortes, não apenas os da cabala mas todos eles. Durante muito tempo, quando havia problemas, as pessoas se voltavam para as religiões. Hoje em dia, há mais opções. Você não precisa ser religioso para ter uma vida espiritual rica.
No passado, estudar cabala requeria conhecimentos especiais. Hoje, existem dezenas de livros que explicam a cabala de forma simples e didática. Mas fica a dúvida: será que algo não se perdeu nessa tradução?
Essa tentativa de traduzir a cabala não é algo recente. Faz muito tempo que alguns cabalistas se empenham em adaptar os antigos ensinamentos para o público leigo. Quer dizer, os textos originais do Zohar estavam escritos em aramaico, uma língua que apenas alguns poucos estudiosos dominam. Ao longo dos séculos, foram feitas várias tentativas de tradução, não só do idioma mas dos conceitos, sempre tentando tornar essa sabedoria mais acessível. Essa é a essência do meu trabalho: quero que qualquer pessoa seja capaz de entender os fundamentos básicos da cabala. Veja bem: se você quiser se tornar realmente um mestre cabalístico, terá que voltar às fontes, aos escritos originais, estudar o Zohar. Vai levar anos, e não vai ser fácil. Mas, se quiser saber o básico, os livros e cursos disponíveis são mais do que suficientes. Obviamente não é a mesma coisa. Mas por que não garantir o acesso a esse conhecimento, ainda que de uma forma simplificada?
Você usa redes sociais como Twitter e Facebook para se comunicar com os futuros cabalistas. Dá pra ensinar cabala em 140 caracteres?
Dá para plantar a semente. Eu acredito, sim, que um simples post pode ser o toque que aquela pessoa precisa para tomar uma decisão. Claro que ninguém vai mudar sua vida por causa do Twitter ou do Facebook. Mas, às vezes, tudo o que a pessoa precisa é de um empurrãozinho…
Em todas as suas entrevistas, você enfatiza que a cabala não é uma religião. Existe uma preocupação em desvinculá-la do judaísmo?No passado, somente os judeus podiam estudar a cabala. Então, algumas pessoas acreditam que ainda é assim. Por isso, acho importante acabar com essa percepção. Quer dizer, você não tem que ser hindu para seguir os ensinamentos de Deepak Chopra, certo? Desde o início, a cabala sempre foi pensada como sabedoria, não como religião.
Você é judeu?Não diria que minha religião é o judaísmo. Eu formulei meu próprio sistema de crenças, com base em várias religiões diferentes. Eu tirei lições do Alcorão, da Bíblia, da Torá. Então, minha religião não tem um nome específico. Só sei que ela é importante para mim. Acredito que a religião é um presente que nos foi dado para nos conectarmos com Deus. Mas, infelizmente, algumas vezes ela é usada como um meio de separar as pessoas, em vez de uni-las. E aí perde sua função original.
Você diz que não é necessário ser judeu para estudar a cabala. Mas ajuda?Conhecer o idioma hebraico pode ajudar na hora de entender os textos originais, ou os ensinamentos contidos no Zohar. Mas essa seria a única vantagem. Quer dizer, alguém que conheça muito bem a Bíblia, como um padre, por exemplo, também vai ter mais facilidade na hora de estudar a cabala. Qualquer pessoa com conhecimentos profundos sobre as escrituras sagradas já sai na frente. Mas tanto faz se for a Bíblia ou a Torá.
Tanto católicos quanto judeus costumam ter uma certa desconfiança a respeito da cabala. Por que acha que isso acontece?Muita gente tem medo de que a cabala vá se contrapor à sua religião, entrar em choque com ela. Mas as duas coisas podem conviver em harmonia: os ensinamentos funcionam como um complemento. Outro problema é que pessoas muito ligadas à sua religião costumam fazer julgamentos a respeito do que consideram “misticismos”. Os judeus, até mais do que os católicos. Já me senti bastante julgado pela comunidade judaica.
Em seus livros, você fala muito sobre ação e reação. Uma de suas principais orientações é que é necessário ser proativo, e não reativo. O que significa isso?Se você apenas reage ao que acontece em sua vida, acaba sendo um efeito desse mundo, quando, na verdade, você deveria ser a razão pela qual as coisas acontecem. Ensino que, nessa vida, há duas opções: você pode tomar as suas decisões ou deixar que alguém decida por você. Ser reativo é exaustivo, porque você fica o tempo todo esperando o que vai acontecer em seguida, para só depois decidir como vai reagir àquilo. Quem assume uma postura proativa não espera que o seu futuro seja definido pelo acaso. Essa pessoa sabe que existem coisas que pode mudar e outras não, e assume a responsabilidade por isso. Esse é o começo da mudança proposta pela cabala.
Algumas pessoas chamariam isso de autoajuda?Tudo depende de como a pessoa vai se relacionar com esse conhecimento. Quer dizer, se você pega a Bíblia, lê um trecho, tira uma lição dali, é autoajuda. É algo superficial, temporário, que não deixa marcas. A cabala pode ser estudada em vários níveis. Então, alguém pode vir ao centro, dar uma espiada, ler alguma coisa e depois ir embora. Não vai significar nada. Mas há milhares de pessoas que estão estudando a cabala há 10, 15, 20 anos. Para elas, cabala é uma coisa duradoura, e não uma solução temporária. Elas levam os ensinamentos muito a sério.
Boa parte da fama do Kabbalah Centre se deve ao fato de o centro ser frequentado por gente como Madonna e Demi Moore. Não seria isso apenas uma estratégia de marketing para ganhar mais adeptos?
Bom, nós nunca corremos atrás das celebridades, elas é que vieram até nós. Não são elas o nosso público-alvo. Se elas querem vir ao centro, ótimo, mas não fazemos disso um objetivo. Tem muita gente por aí julgando o que o Kabbalah Centre faz, mas tudo o que digo é: venha ao centro, assista a uma aula, consulte o site, conheça o nosso trabalho. Se você gostar, ótimo. Se não gostar, ótimo. Mas não julgue antes de experimentar por você mesmo.
Seu pai, Philip Berg, foi o criador do Kabbalah Centre. Sentiu desde o início uma pressão para seguir os passos dele? Você tem 5 filhos, como vai ser quando eles crescerem?
Ele nunca me disse o que deveria fazer. Eu poderia ter escolhido qualquer outra carreira. Mas teve um ponto na minha vida, aos 23 anos, em que eu disse: “Deixa eu tentar fazer parte desse trabalho”. Gostei da experiência e continuei. Eu gostaria que meus filhos também estudassem a cabala. Mas a decisão vai ser deles.
“Nunca fomos atrás das celebridades, elas é que vieram atrás de nós. Seria melhor se as pessoas conhecessem o nosso trabalho antes de fazer julgamentos.” Yehuda Berg

Em nome da tradição

Uma das personalidades mais respeitadas na comunidade judaica brasileira, Michel Schlesinger tem uma visão conservadora da cabala: para ele, trata-se apenas de uma das possíveis leituras do judaísmo. Para entendê-la, diz, é fundamental conhecer as bases da religião judaica. "Quem estuda cabala sem conhecer o bê-á-bá do judaísmo corre o risco de perder o principal", diz o rabino.

Entrevista Marisa Adán Gil
Ele tinha 17 anos quando começou a dar aulas de bar mitzvah. Durante algum tempo, chegou a pensar em ser ator, mas acabou fazendo vestibular para a Faculdade de Direito da USP. Já no 3º ano, o então estudante Michel Schlesinger decidiu que o seu destino era mesmo o rabinato. Em 2001, mudou-se para Jerusalém, onde frequentou o Seminário Rabínico Schechter, com o apoio da Congregação Israelista Paulista, uma das mais influentes associações judaicas do país. Após completar o curso de 4 anos, retornou ao Brasil e passou a integrar o rabinato da congregação – no início, como assistente de Henry Sobel. Hoje, aos 30 anos, é um dos nomes mais prestigiados da congregação paulista e um dos maiores estudiosos da tradição judaica no país.
É essa tradição que ele defende ao definir a cabala como apenas “uma leitura a mais” da religião judaica. “Não há como dissociar a cabala do judaísmo”, diz ele. “As duas coisas estão totalmente ligadas. A cabala é uma interpretação mística, alegórica do judaísmo, que ajuda a enriquecer os estudos. Para entendê-la, é necessário estudar primeiro os fundamentos teóricos da religião judaica. Quem acha que pode se transformar num cabalista da noite para o dia, sem nenhum preparo, não sabe o que está fazendo”, diz. Nesta entrevista, Michel Schlesinger fala sobre religião, autoajuda e loucura.

O que acha da crescente popularização da cabala?

Acredito que esse movimento de popularização é reflexo desta época de internet, Facebook, Twitter. Vivemos um momento em que as pessoas compartilham conhecimentos com o mundo inteiro na velocidade do apertar de um botão. Mas existe um perigo nisso. Por exemplo, se eu entrar na internet e escrever “holocausto”, vou encontrar dezenas de sites sobre o tema: alguns sérios, com muita informação, e outros escritos por neonazistas que querem confundir as pessoas. A mesma coisa acontece com a cabala. A dificuldade é separar o joio do trigo. Quem está interessado em estudar a cabala deve tomar muito cuidado. Quando uma coisa está na moda, faz sucesso e movimenta dinheiro, sempre existe muito charlatanismo envolvido.

Como a comunidade judaica vê os ensinamentos da cabala?

Dentro da comunidade judaica, a cabala é vista como uma leitura a mais, que ajuda a enriquecer os estudos do judaísmo. Temos várias interpretações possíveis dessa tradição, e a cabala é apenas uma delas. Trata-se de uma interpretação mística, que trabalha com símbolos, mitos e esquemas numéricos para tentar entender Deus e a espiritualidade. Entre os grupos judaicos, alguns estão mais próximos dessa visão mística, outros mais distantes. Os judeus de origem lituana, por exemplo, estão entre os mais racionais: para eles, o que importa é seguir as regras determinadas por Deus. Já os judeus de países como Polônia e Rússia são mais místicos. Na prática da comunidade judaica no Brasil, a cabala está presente muito mais como um objeto de estudo do que como objeto vivencial. Os judeus se interessam por ela sob um ponto de vista intelectual. Querem conhecê-la, mas não pautam seu modo vida por ela. Algumas sinagogas oferecem espaço para discussões sobre a cabala. Mas não é um espaço para a vivência mística – o misticismo entra como uma visão a ser conhecida e avaliada.
Os defensores da cabala pop, como o rabino Yehuda Berg, costumam separar essa sabedoria da tradição judaica, dizendo que seus ensinamentos não têm nada a ver com religião.
A cabala está absolutamente ligada ao judaísmo. Tanto que, para você conseguir entender seus ensinamentos com alguma profundidade, precisa antes conhecer as bases teóricas da religião judaica. Considero um salto até um pouco perigoso tentar estudar cabala diretamente, porque ela trabalha com metáforas e simbologias baseadas na tradição religiosa. Aqueles sábios que desenvolveram a cabala cresceram no meio judaico e conheciam profundamente essa literatura. Se você começa a pesquisar sobre cabala sem antes conhecer o bê-á-bá do judaísmo, corre o risco de perder o principal.
Existem regras ou princípios para quem quer seguir a cabala?
A cabala é uma maneira de interpretar uma tradição religiosa. Ela conta com instrumentos que possibilitam uma leitura própria, como a numerologia judaica, que atribui valores numéricos às letras do alfabeto hebraico. Você abre a Torá e começa a fazer jogos com os números, e isso lhe traz possibilidades interpretativas diferentes. Mas não dá para falar em princípios da cabala. Ela é um meio, não um fim. Durante esse processo de comercialização pelo qual ela está passando, a tendência é criar manuais. Mas tudo isso é bastante simplista e bastante perigoso.
O mercado está cheio de livros que prometem explicar os ensinamentos da cabala para o leitor leigo.
É possível entrar em contato com a cabala de várias maneiras. Pode ser que você tenha um interesse intelectual no assunto. Então, se quiser saber o que outras pessoas pensam sobre a cabala, tudo bem, pode ler o livro do rabino Berg, ou de qualquer outro estudioso, e conhecer o ponto de vista dele. E pode ser que essa leitura seja interessante, enriqueça a sua vida. Agora, se você quer ter um contato direto com as fontes, estudar o Zohar, O Livro do Esplendor, você não pode chegar a isso despreparado, sem conhecer a base.
Há também livros que prometem experiências místicas para pessoas que nunca tiveram contato com o judaísmo. Dizem, por exemplo, que o simples ato de passar a mão sobre as letras do alfabeto hebraico teria o poder de curar doenças.
Acredito que essa é uma maneira superficial de entrar em contato com uma tradição profunda. Quer dizer, por trás dessa ideia de “passar a mão sobre as letras” existem anos de estudo, discussão e aprofundamento. É uma pena que a pessoa leia o livro, dê uma espiada nas imagens e ache que tudo termina ali. Na verdade, tudo começa ali. É uma simplificação exacerbada. Quando você quer, em 5 minutos de leitura, entender séculos e séculos de tradição, obviamente acaba perdendo mais do que ganhando.
Solução rápida dos problemas, sem qualquer aprofundamento: estamos no terreno da autoajuda, certo?Essa é a minha dificuldade com esse tipo de abordagem. Deixa eu dar um exemplo. Todos os judeus têm, na porta de suas casas, a mezuzá, uma caixinha onde fica um pergaminho com uma oração. É uma tradição judaica. Volta e meia sou abordado por não judeus que me perguntam: “Posso colocar uma caixinha igual na minha porta?” E eu respondo: “Pode, claro que pode”. Quem sou eu para proibir? Mas isso não vai ter o mesmo significado que tem para uma pessoa que é praticante do judaísmo. Aquela pessoa que me abordou pode até ficar feliz de ter a caixinha na porta, mas não é a mesma coisa.
O que diria para alguém que gostaria de se iniciar no universo da cabala, mas não sabe por onde começar?
Eu sugeriria que essa pessoa procurasse algum centro de estudos judaicos em sua cidade, para pedir indicações de cursos e leituras sérias. Em São Paulo, existe o Centro de Cultura Judaica, que funciona como uma interface entre judaísmo e não judeus. Lá são oferecidos cursos de cabala, por exemplo.
Alguns cabalistas dizem que o misticismo está em alta porque as pessoas estão carentes, precisando de respostas. Acredita nisso?
Não acho que seja uma coisa do nosso tempo. Acredito que a curiosidade pela mística, pela magia, sempre existiu. Qual foi a época da existência humana em que as pessoas não buscaram respostas? Isso está ligado à fragilidade do ser humano e à necessidade de se conectar a algo maior. O que mudou foi o acesso à informação. Hoje o conhecimento está mais acessível. Só isso.
Você acha que o misticismo pode estar tomando o lugar que um dia foi das religiões? Existe esse movimento?
Eu acho que a dissociação do misticismo da religião é um erro. Para mim, essas duas coisas se complementam, se enriquecem, não se contradizem. As pessoas que se interessam pelo mundo místico também estão se aproximando da religião, buscando um canal religioso místico. O misticismo e a religião caminham juntos. No judaísmo, pelo menos, é a mesma coisa. O objetivo é o mesmo, se conectar com algo superior, receber respostas existenciais, colocar um pouco de ordem no caos.
Uma das lendas que cercam a cabala é de que os seus ensinamentos são tão poderosos que poderiam levar uma pessoa à loucura.
Conheço essa lenda e a acho muito interessante. Para mim, é uma ideia metafórica. Quer dizer, quando você se aprofunda em um tema místico, tem que estar pronto para isso, emocionalmente preparado. Essa é a loucura: quando você abre uma porta, tem que estar disposto a tudo, a entrar em contato com coisas de que vai gostar e outras não. É um risco, você pode perder o controle. Também dá para interpretar de outro jeito. O acesso à informação que existe hoje é tão perigoso que pode gerar um outro tipo de loucura, esse de achar que pode ser especialista em um assunto específico simplemente porque pegou um determinado livro e leu. Quem estuda cabala sem nenhum tipo de preparo, sem nenhum tipo de base, e acha que se transformou num cabalista do dia para a noite enlouqueceu.
“É uma loucura você acreditar que pode estudar a cabala sem nenhum tipo de preparo e daí se tornar um especialista do dia para a noite.” Michel Schlesinger

O caminho das pedras

Centros de estudos, sites e livros para quem quer se iniciar na cabala

PARA SABER MAIS
O Zohar {Gershom Scholem – Estampa, 2007}
O historiador alemão faz uma análise de trechos escolhidos do Zohar, o livro sagrado da cabala.
Sêfer Ietsirá – O Livro da Criação {Editora Sêfer, 2002}
O rabino israelense Arieh Kaplan analisa um dos livros fundamentais do misticismo.
O Essencial da Cabala {Daniel C. Matt – Best Seller, 1995}
Um dos melhores guias disponívels para entender os conceitos da cabala.
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico {David A. Cooper – Elsevier, 2006}
Questões espirituais como a natureza divina e a reencarnação ganham destaque.
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico {David A. Cooper – Elsevier, 2006}
Questões espirituais como a natureza divina e a reencarnação ganham destaque.
O Último Cabalista de Lisboa {Richard Zimler – Companhia das Letras, 2007}
O autor traça um retrato dos judeus no século 16, quando foram vítimas da Inquisição e perseguidos por fanáticos religiosos.
Numerologia Judaica e seus Mistérios {David Zumerkorn – Editora Maayanot, 2001}
O autor mostra como as letras hebraicas e os números se combinam para criar novos e intrigantes significados.
O Poder da Cabala {Yehuda Berg – Imago, 2010}
O diretor do Kabbalah Centre explica os principais conceitos da cabala, sempre de maneira bastante simplificada.
PARA ESTUDAR
Kabbalah CentreO centro americano de estudos da cabala tem filiais em São Paulo e no Rio de Janeiro. É possível se informar no site portuguese.kabbalah.com. Em São Paulo: tel. (11) 3061-2307 begin_of_the_skype_highlighting (11) 3061-2307 end_of_the_skype_highlighting. No Rio de Janeiro: tel. (21) 2526-3353 begin_of_the_skype_highlighting (21) 2526-3353 end_of_the_skype_highlighting.
Portal da CabalaA casa comandada por Ian Mecler promove cursos no Rio e em São Paulo. Informações sobre horários e preços no site portaldacabala.com.br. A sede fica no Rio: tel. (21) 2294-3158 begin_of_the_skype_highlighting (21) 2294-3158 end_of_the_skype_highlighting.
Centro da Cultura JudaicaA casa oferece cursos de cabala. Mais informações: tel. (11) 3065-4333 begin_of_the_skype_highlighting (11) 3065-4333 end_of_the_skype_highlighting, São Paulo, culturajudaica.uol.com.br.
Congregação Israelita PaulistaTambém tem cursos dedicados à cabala. Ligue para: (11) 2808-6299 begin_of_the_skype_highlighting (11) 2808-6299 end_of_the_skype_highlighting, cip.org.br.
Federação Israelista do Estado de Minas GeraisPromove cursos de cabala. Atende no tel. (31) 3224-2129 begin_of_the_skype_highlighting (31) 3224-2129 end_of_the_skype_highlighting, Belo Horizonte, fisemg.com.br.
NA INTERNET
Bnei Baruch Kabbalah Education & Research InstituteConsiderado um dos maiores grupos cabalistas de Israel, o Bnei Baruch é comandado pelo filósofo Michael Laitman. Mantém um site em português, com diversos cursos online: kabbalah.info/brazilkab/index.htm.
Chabad.orgO site, dedicado ao judaísmo, tem bons cursos online: pt.chabad.org.
Kabbala OnlineAssociado ao Ascent, centro de estudos de Safed, Israel, funciona como uma espécie de portal da cabala: kabbalaonline.org.
Fonte:http://super.abril.com.br/historia/

O que a cabala pode fazer por você?


Tradição mística mantida em segredo por séculos, a cabala permite interpretar significados ocultos nas histórias da Torá, livro sagrado dos judeus. Como esses ensinamentos podem nos levar a uma vida melhor?


Texto Eduardo Szklarz
O formato da Torá, livro sagrado do judaísmo, impressiona: dois grandes rolos de pergaminho escritos à mão com tinta especial, presos a carretéis de madeira e envoltos por um pano bordado e ornamentos de prata. Seu conteúdo, revelado por Deus a Moisés no monte Sinai, inclui os 5 primeiros livros da Bíblia e narra desde a Criação até a saga do povo de Israel pelo deserto em busca da Terra Prometida. Mas a riqueza dos pergaminhos vai muito além. Segundo a cabala, tradição mística judaica, as 304 805 letras hebraicas da Torá também contêm significados ocultos sobre Deus e as leis do Universo. Ao usarem chaves numéricas e meditações para desvendar esses mistérios, os cabalistas tiram lições das histórias narradas no texto. E você não precisa ser rabino ou mesmo judeu para ter acesso a esses ensinamentos e usá-los para viver melhor.
O segredo da cabala é relacionar palavras e números da Torá de uma maneira específica. E sua origem está no Sefer Ietsirá, ou Livro da Criação, obra minúscula que ninguém sabe ao certo quando e por quem foi escrita. O fato é que ela introduz a idéia de que Deus criou o Universo usando as 22 letras do alfabeto hebraico. “O Gênese já dizia que o verbo divino foi o instrumento da Criação: Deus disse ‘Haja luz’, e houve luz. A novidade do Sefer Ietsirá é especular em detalhes como Deus combinou essas letras”, diz o pesquisador Daniel C. Matt no livro O Essencial da Cabala. O livro também apresenta a idéia das sefirot, plural de sefirá, que pode significar “reino”, “esfera” ou “contagem”, conforme a tradução. Representadas pelos números de 1 a 10, elas são consideradas outro instrumento da criação do Universo. O livro só não explicava como usar tudo isso para revelar os significados ocultos da Torá.
A era de ouro da cabala
Até que no século 13 o espanhol Moisés de León publicou o Sefer Ha Zohar, Livro do Esplendor, com as regras que consolidaram o que hoje se conhece como cabala. Ele conectou cada sefirá a um modo que Deus tem de atuar, bem como a um personagem bíblico. “A sefirá de Chessed, por exemplo, está ligada ao amor e a Abraão. Quando os cabalistas lêem Abraão na Torá, lêem também esse aspecto misericordioso de Deus atuando no mundo”, diz Leonardo Alanati, da Congregação Israelita Mineira.
Além de usar essas associações entre aspectos de Deus e passagens da narrativa, os cabalistas interpretam a Torá utilizando a guimátria, numerologia judaica. O princípio é que cada uma das 22 letras do alfabeto hebraico, do alef ao tav, possui um valor numérico. “As primeiras 9 letras estão associadas às unidades (1, 2, 3, …, 9); as 9 letras seguintes estão associadas às dezenas (10, 20, 30, …, 90); e as últimas 4 estão associadas às centenas (100, 200, 300, 400)”, diz o pesquisador David Zumerkorn no livro Os Segredos da Guimátria. Fazendo as contas (veja abaixo), surgem os significados ocultos que expandem os ensinamentos do livro sagrado. “Aparentemente, as histórias da Torá não têm relação com a vida diária. Mas a cabala mostra que, por trás delas, há ensinamentos profundos sobre como lidar com nosso semelhante e encarar as situações”, diz Samuel Lemle, professor do Kabbalah Centre (Centro de Cabala) no Brasil.
Lemle menciona o mandamento bíblico “Não matarás”, lembrando que na Torá há uma passagem onde Deus ordena aos israelitas matar o povo de amalek. Uma baita contradição, certo? A não ser que se usem as contas do Zohar para ver que as letras hebraicas da palavra amalek têm o mesmo valor numérico que a palavra safek, que significa “dúvida” ou “incerteza”. “A cabala usa a numerologia para entender que matar Amalek não é matar um povo, mas a dúvida e a incerteza dentro de nós”, diz Lemle. “A guerra não é contra o inimigo lá fora, mas contra um oponente interno, um lado negativo da nossa natureza: pensamentos do tipo ‘não vou conseguir’ e ‘isso não vai dar certo’. Eles sabotam a nossa vida.”
Segundo o professor, cabalistas milenares usavam essa sabedoria para se tornarem pessoas melhores e crescer espiritualmente. Assim como cabalistas modernos, eles queriam não apenas compreender mais sobre Deus mas também obter lições de vida e aconselhar as pessoas. E, ao contrário do que muitos pensam, o misticismo judaico nunca foi um oráculo capaz de descobrir coisas sobre o passado ou o futuro. De vez em quando alguém até arrisca esse caminho – por exemplo, tentando prever a chegada do Messias, mas sempre dá errado. O rabino Alanati lembra que a cabala também não tem nada a ver com amuletos. “Na Idade Média, muita gente escrevia fórmulas com permutações das letras dos nomes de Deus atrás da mezuzá (caixinha colocada no batente da porta nas casas judaicas)”, diz ele.
Uma tradição secreta
Por essas e outras, durante muito tempo não foi fácil ter acesso à cabala. Os candidatos tinham que ser homens judeus de mais de 40 anos – e só os mais qualificados espiritualmente eram aceitos. “Os rabinos temiam que as técnicas caíssem nas mãos de quem não tinha a preparação necessária. Em quase todas as religiões, as iluminações místicas dos leigos sempre foram fontes de risco e heresias”, diz o historiador Gershom Scholem no livro As Grandes Correntes da Mística Judaica. Até hoje, judeus ortodoxos restringem o ensino da cabala. Mas algumas correntes mais progressistas discordam. “Não é que os cabalistas antigos quisessem ocultar a cabala. É que não tínhamos a linguagem acessível para compartilhar esses conhecimentos. Mas os avanços da nossa era já nos permitem entendê-los”, diz Lemle.
A popularização do estudo
Assim o estudo da cabala levou séculos para sair da obscuridade total, mesmo entre os judeus, até a relativa popularidade atingida nos anos 90, quando o Kabbalah Centre, nos EUA, abriu as portas da cabala para leigos de qualquer religião. Madonna, uma de suas freqüentadoras, garante que tem atraído boas vibrações desde que começou a fazer o curso. Os ortodoxos criticam a iniciativa (que inclusive foi rotulada de cabala “pop” ou “light”), mas o Kabbalah Centre garante que o conhecimento é o mesmo e até os livros de seus alunos são exatamente os mesmos que servem de fonte para os judeus.
Segundo Lemle, a primeira coisa que o estudo da cabala proporciona é uma nova atitude diante da vida. “Do mesmo jeito que existem leis físicas, como a lei da gravidade, a cabala diz que existem leis espirituais que regem este mundo. E nos ensina a conviver com elas em harmonia”, afirma. Por exemplo: a cabala diz que não existe o acaso, e sim a lei de causa e efeito. Tudo o que acontece na nossa vida fomos nós que criamos de alguma forma. Assim, o ensinamento mais importante para quem começa a estudar no Kabbalah Centre é deixar de ter um comportamento reativo e passar a ser proativo. Ou seja, deixar de ser o efeito de determinadas situações e se tornar a causa delas.
“Sendo proativo, você deixa o papel de vítima, que nunca tem controle sobre a situação. Você aprende a parar, pensar e buscar a melhor forma de agir em cada momento”, diz Lemle. Segundo ele, isso pode ser aplicado em situações tão corriqueiras como uma conversa entre irmãos ou uma briga entre marido e mulher. “Os cabalistas milenares também eram proativos. Abraão ensinava às pessoas que existia um único Criador e que havia uma lei de causa e efeito. Ou seja, ensinava uma forma de encarar a vida”, afirma.
Na busca por essa nova atitude, os alunos aprendem a usar ferramentas cabalísticas. As mais simples são feitas de combinações de letras que não têm nenhum significado em hebraico; são simplesmente chaves, como ABD, que funcionam como uma espécie de mantra para meditação. “O Zohar explica que os olhos são as janelas da alma. Passar os olhos todo dia por essas seqüências de letras nos ajuda nessa mudança espiritual. O processo de visualização alimenta nossa alma para que possamos ser proativos”, diz o professor.
Claro que ninguém vai freqüentar algumas aulas e mudar sua vida de repente. “Uma pessoa precisa estudar física quântica por muitos anos para entendê-la profundamente, mas começa aprendendo a contar de 1 a 10. No curso, é a mesma coisa. O aluno começa contando até 10”, diz ele, acrescentando que mesmo o conhecimento limitado das primeiras aulas do curso já possibilita aos alunos tirar algum proveito na prática, como controlar melhor as emoções no dia-a-dia. “Mas nada vai funcionar se não tivermos a verdadeira intenção de aprender e nos tornarmos pessoas melhores.”

A numerologia


A matemática dá novos sentidos à Torá
Há várias formas de interpretar a Torá usando a numerologia judaica. Uma delas é relacionar duas palavras com o mesmo valor numérico ou dois versículos onde essas palavras aparecem. Por exemplo, o valor das letras da palavra amalek (referente ao antigo povo amalek) é o mesmo da palavra safek (“dúvida” ou “incerteza”). Para os cabalistas, isso significa que a ordem bíblica de matar amalek não se refere ao povo em si, mas à dúvida e à incerteza que existem dentro de nós.
Amalek
Ayin70
Mem40
Lamed30
Kuf100
240
Safek
Samech60
Fei 80
Kuf100
240
Amalek = Safek


A árvore da vida


A estrutura do Universo, segundo a cabala
As 10 sefirot formam uma árvore invertida, chamada Árvore da Vida. A raiz fica em cima, próxima ao aspecto primordial de Deus, e os galhos embaixo, nas sefirot inferiores. A sefirá Malchut é a mais próxima do ser humano e a que lhe dá a primeira sensação de Deus atuando no mundo. À medida que evolui espiritualmente, a pessoa sobe os degraus em direção às sefirot superiores. Além disso, a árvore tem 3 colunas. “Buscamos a coluna central, que é o equilíbrio”, diz Samuel Lemle. “Tenho muito amor pelo meu filho, mas não posso dar tudo a ele, pois o amor também envolve dar limites.” Por isso Chessed (amor) está ao lado de Guevurá (justiça).

Rabi Shimon bar Yohai
NOME ORIGINAL_Zohar
EDIÇÃO EM INGLÊS_ The Zohar, Kabbalah Centre International; 2003
DO QUE TRATA
A Cabala não é propriamente um livro, mas se tornou conhecida mundo afora como uma obra escrita. É baseada nos ensinamentos do Zohar, uma interpretação do chamado primeiro manuscrito cabalístico, o milenar Livro da Formação. Consiste em interpretações esotéricas das Escrituras Hebraicas, nas quais cada letra, número e acento é tratado como um código secreto que contém algum significado profundo e oculto, colocado lá por Deus.

Fonte:http://super.abril.com.br/historia/o-que-a-cabala-pode-fazer-por-voce/


O que é que a Cabala tem?


Por que pessoas de diferentes credos se renderam à mística judaica e que ensinamentos esses novos alunos estão encontrando

Conta a Torá que, após ter libertado os judeus da escravidão, Moisés gozava de grande prestígio não só entre seu povo, mas também na mais alta esfera divina. Deus lhe fazia diversas aparições e, em uma das visitas, teria lhe apresentado as leis que disciplinariam a vida dos judeus. Seguindo a orientação do Senhor, Moisés compilou-as na Torá, a Bíblia dos judeus. No entanto, o que muitos não desconfiavam é que, mais do que um calhamaço de leis, a Torá guardava informações valiosíssimas. Nas entrelinhas das 613 normas descritas no livro, estavam codificados os mistérios da criação do mundo.
Milhares de anos depois das conversas entre Deus e Moisés, seu conteúdo está conquistando cada vez mais adeptos, incluindo aí gente da nata de Hollywood. A cantora Madonna, por exemplo, já cansou de dizer que a cabala mudou sua vida. “Ela ensina que seu verdadeiro potencial não tem a ver com vender discos ou ser famosa. Tem a ver com o que você faz para tornar o mundo melhor”, disse a cantora ao jornal inglês The Sunday Times, em 2004. Mas o que na cabala fez Madonna perceber que sua sina não era ser uma material girl? Quais são os ensinamentos por trás dessa sabedoria milenar? E por que eles estão se tornando pop?

Origens e influências

A história de que Moisés recebeu do Senhor os ensinamentos da cabala é apenas uma das muitas versões sobre sua origem. Há quem diga que Adão foi o primeiro a ter acesso a essa sabedoria e depois a transmitiu aos homens do patriarcado hebreu (Noé, Abraão, Moisés). Outros acreditam que um anjo a teria revelado ao misterioso sacerdote Melquisedec, que a repassou a Abraão. Todas essas lendas ajudaram a obscurecer os fatos sobre a verdadeira origem desse conhecimento místico.
Alguns estudiosos – entre eles o historiador Gershom Scholem, uma das maiores autoridades no assunto no mundo – concordam que o gnosticismo, movimento esotérico-religioso surgido nos primeiros séculos da nossa era, foi um de seus pontos de partida centrais. Os gnósticos eram pessoas que se dedicavam a refletir sobre questões que sempre intrigaram a humanidade: “quem somos?”, “de onde viemos?”, “para onde vamos?”. Os judeus simpatizantes do pensamento gnóstico se basearam nas escrituras judaicas para criar um sistema de informações e interpretações secretas sobre a origem do Universo, visando justamente responder a essas perguntas. Era o prenúncio da cabala (a palavra deriva da raiz hebraica kibel, que significa “receber”, já que os ensinamentos eram recebidos oralmente).
Ao longo dos séculos, esse sistema teria sofrido influências de elementos místicos de diversas religiões e filosofias. Do hinduísmo, por exemplo, herdou a crença de que as almas reencarnam. Dos povos da Caldéia, assimilou os conhecimentos de astrologia. Dos povos babilônios, a crença em anjos e demônios. Mas, de todas as vertentes do saber ocidental e oriental, foi o neoplatonismo, doutrina filosófica criada pelo egípcio Plotino no século 3, que exerceu a maior influência sobre o sistema que seria conhecido como cabala.
Plotino acreditava que Deus está além da compreensão humana e não possui qualquer representação. Essa idéia casou perfeitamente com a tradição legalista do judaísmo, que enxerga Deus sob uma perspectiva altamente sobre-humana e nem se atreve a nomeá-lo. O rabino Laibl Wolf, em seu livro Cabala Prática, de 2003, compara a luz (entenda-se aqui “energia”) de Deus a uma lâmpada de brilho tão intenso que, se acendê-la, você corre o risco de ficar cego. Para ele, mesmo cobrindo-a com um pano translúcido, ela ainda será forte a ponto de ferir suas vistas. Somente depois de colocar diversos panos é que se torna possível enxergá-la e compreendê-la. Essa metáfora explica bem a constituição do símbolo máximo do conhecimento cabalístico, a Árvore da Vida.

Ganhando o mundo

A cabala permaneceu restrita ao círculo judaico, tratada como um saber secreto e de elite, durante centenas de anos. Seus ensinamentos só poderiam ser recebidos por aqueles que atingissem o quarto nível de interpretação da Torá. O primeiro estágio (Peshat) era moleza. Todos os judeus tinham de passar por ele e aprender as leis que disciplinam seu comportamento social, ético e religioso. O segundo (Remez) mostrava o que havia por trás do significado literal. No terceiro nível (Derush), o iniciado descobria que as informações sobre a criação do mundo estavam escondidas sob metáforas e analogias. E só então estava habilitado a entender o quarto e último nível (Sod). Todo esse preparo levava muito tempo e, por isso, o seleto grupo de iniciados costumava ser formado por homens com mais de 40 anos.
No século 13, um grupo de cabalistas espanhóis começou a se preocupar com o risco de a tradição se perder e decidiu registrá-la. A publicação do Zohar – O Livro do Esplendor (ainda hoje a obra mais importante da cabala) sinalizava, pela primeira vez, uma tentativa concreta de popularizar esse saber. Nessa época, o clima na Espanha era favorável ao florescimento da mística judaica. Apesar de boa parte da Europa estar sob o jugo da Igreja, a Península Ibérica estava sob o domínio dos árabes desde o século 8. “Muçulmanos instalados na atual Espanha conviviam bem com outras culturas e religiões”, conta o professor José Alves de Freitas Neto, do Departamento de História da Unicamp. Graças a essa tolerância, a cabala encontrou um campo fértil para se difundir.
Mas ainda se passariam 300 anos para que ela começasse a se popularizar. Em 1492, a paz na Península Ibérica foi quebrada e os reis da Espanha expulsaram do país todos que não estivessem dispostos a colaborar com a consolidação de um Estado cristão (entenda-se aqui tornar-se católicos da noite para o dia). Essa nova diáspora reacendeu o risco de não somente a mística, mas toda a tradição judaica se perder com a dispersão do seu povo pelo mundo. Na tentativa de garantir a continuidade da sabedoria, os cabalistas se estabeleceram em um novo centro, na cidade de Safed, em Israel. Lá surgiu uma das figuras mais importantes da cabala moderna: Isaac Luria.
Inspirado no Zohar, Luria fez uma releitura da sabedoria místico-judaica, criando a cabala luriânica, cujos ensinamentos continuam muito atuais. Seus seguidores acreditam que algumas das descobertas da ciência no século 20 já tinham sido reveladas por Luria 400 anos antes. “Ele já afirmava, no século 16, que o Universo nasceu a partir de um único ponto de luz, que se fragmentou. Apesar da diferença de denominação – os físicos chamam esse ponto de luz de matéria ou energia – é uma explicação bastante semelhante à teoria de criação do Universo conhecida como big-bang”, escreveu o rabino Yehuda Berg, do Kabbalah Centre, de Los Angeles (o centro onde Madonna estuda).
Para ele, a cabala também encontrou, antes da psicanálise, a resposta para uma das maiores indagações da humanidade: a razão do sofrimento. De acordo com a sabedoria mística judaica, a dor e a tristeza impedem que o nosso ego cresça a ponto de nem a gente conseguir se suportar. “Neste momento, você deixa de praticar atitudes que possam ajudar a melhorar o mundo e passa a ter preocupações mesquinhas, como comprar um carro mais legal do que seu vizinho”, diz Berg. Pelo comentário de Madonna no começo desta reportagem, dá para ver que ela estuda bem suas lições.
Para os cabalistas, esses conhecimentos já existiam na Torá, só que codificados. Tudo o que eles fizeram foi interpretá-los da maneira certa. “Como o olho físico, que manda uma imagem invertida ao cérebro, a Torá mostra suas histórias de cabeça para baixo. Somente a cabala pode reverter a imagem e nos apresentar a verdadeira compreensão e o verdadeiro significado espiritual”, escreveu Rav Berg, irmão de Yehuda, no texto “A Torá Segundo a Cabala”. Uma passagem da escritura judaica, contando que Deus ordenou a morte dos habitantes da nação inimiga Amalek, seria um exemplo de como os ensinamentos precisam de decodificação. “É uma instrução controversa à luz do mandamento ‘não matarás’. A cabala explica essa contradição. O Zohar mostra que a palavra Amalek tem o mesmo valor numérico que a palavra em hebraico para incerteza”, escreveu Rav Berg. Ou seja, para ele, a mensagem de Deus é para que matemos as nossas próprias incertezas.

Cabala moderna

Mesmo depois dos ensinamentos cabalísticos terem sido passados para o papel, seu estudo ainda era restrito. “Formou-se um sistema filosófico e místico tão complexo que já não se tornava necessário cuidar para que poucos o penetrassem, pois só poucos estariam mesmo capacitados para isso”, diz o verbete “cabala” do Dicionário Histórico das Religiões.
Hoje já não é mais assim. Alguns cabalistas têm se esforçado em traduzir para uma linguagem bem simples os ensinamentos místicos judaicos. O irmãos Berg são expoentes dessa turma, que busca mostrar aplicações práticas dessa sabedoria para pessoas comuns enfrentarem os desafios da vida. No livro Os 72 Nomes de Deus, Yehuda Berg ensina a usar determinadas combinações de letras hebraicas, que formam os chamados 72 nomes de Deus, para nos ajudar a solucionar desde o temido mau-olhado até casos complexos como infertilidade.
Essa tradução dos ensinamentos foi um fator decisivo na popularização da cabala nas últimas décadas. Mas, para os cabalistas, ela já estava prevista. “O Zohar já dizia que ‘as portas do conhecimento se abririam’, ou seja, que a sabedoria da cabala se expandiria”, diz o rabino Nathan Silberstein, de São Paulo.
Mas a cabala não foi a única sabedoria mística a se popularizar no século 21. Para Leandro Karnal, chefe do Departamento de História da Unicamp e mestre em Ciências da Religião, diversos movimentos místicos emergiram nos últimos anos como fruto da insatisfação do homem com a religião, que institucionalizou a fé. “O padre, rabino ou qualquer outro chefe de uma instituição religiosa passa a ser o intermediário entre o homem e Deus. Aquela comunicação direta descrita nas escrituras sagradas desaparece”, diz ele. Em meio à debandada de fiéis, a mística tem desempenhado papel fundamental: ela aproxima o homem de Deus, de forma menos dogmática e severa.
Mas nem todo mundo vê com bons olhos a maneira como alguns pregam essa popularização. “É preciso tomar cuidado. Uma coisa é você querer que as pessoas tenham acesso à informação e ensinar a elas como fazer isso. Outra é você simplificar esse conhecimento a ponto de gerar interpretações deturpadas ou errôneas”, diz o rabino Nathan.
Seja porque estava escrito, seja porque os ensinamentos foram simplificados, seja porque ela exprime “as verdadeiras aspirações psicológicas do povo” (como disse o historiador Gershom Scholem), o fato é que a cabala está crescendo. Num mundo de poucas certezas e muitas promessas de fórmulas mágicas, para algumas pessoas ela tem sido uma espécie de bússola. Confiar ou não na direção apontada é uma escolha individual.

A árvore da vida: guardiã dos mistérios da criação

Cada sephirah (esfera) representa um dos atributos de Deus, que devem ser aprimorados por nós durante a vida. Além de ser uma espécie de mapa para nosso desenvolvimento espiritual, a Árvore da Vida representa o caminho que Ele fez para criar o Universo (indicado pelo relâmpago brilhante). “Qualquer ser vivo, fenômeno ou mesmo manifestação da realidade, como um novo projeto ou negócio, resulta dessa mesma fórmula”, explica o cabalista Nelson Real Júnior.
1. Kether (Coroa)Gera a energia ou vontade que vai impulsionar o processo de criação. No homem, é o grande potencial que ele possui, mas ainda desconhece. Como somos frutos da criação divina, nosso objetivo deve ser percorrer os caminhos até retornar a Kether.
2. Hockmah (Sabedoria)É considerada a usina geradora da vida. Aquela inspiração “divina”, idéia genial que surge de vez em quando, é obra de Hockmah.
3. Binah (Compreensão)É a forma de bolo: recebe o impulso criador e lhe dá um formato. Binah nos ajuda a expressar nossas idéias.
4. Hesed (Misericórdia)Já viu algum projeto dar certo sem dedicação? Se essa sephirah não está em forma, dificilmente se concretiza um intento. No homem, é a força vital e amorosa.
5. Geburah (Justiça)Impede o desperdício e elimina os excessos num projeto. É graças a Geburah que viabilizamos nossas criações.
6. Tiferet (Beleza)Trata-se do talento. Tiferet nos obriga a nos autoconhecer, para melhor direcionar nosso potencial criativo.
7. Netzach (Vitória)É a nossa intuição, a voz oculta que nos dá a direção certa. Simboliza também a realização pessoal.
8. Hod (Glória em Esplendor)Hod controla os impulsos arrebatadores de Netzach. É o pensamento analítico e estratégico.
9. Yesod (Fundamento)No processo de criação, é aquele toque pessoal que diferencia um projeto dos demais. No homem, constitui a força que o leva a seguir adiante.
10. Malkhult (Reino)É onde o projeto se materializa. Aqui presenciamos a obra completa.

Para saber mais

Zohar – Trechos Selecionados, Ariel Bension (org.), Polar, 2005
Cabala – O Caminho da Liberdade Interior, Ann Williams-Heller, Pensamento, 2004
Cabala Prática, Laibl Wolf, Maayanot, 2003

Fonte:http://super.abril.com.br/tudo-sobre/cabala/

Fonte:http://super.abril.com.br/historia/o-que-a-cabala-pode-fazer-por-voce/



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