PARANORMALIDADE EXISTE ? - O MUNDO PARANORMAL

Paranormalidade existe?

Fenômenos que parecem desafiar as leis da natureza intrigam a humanidade há séculos. Mas será que eles existem mesmo? Saiba o que os cientistas já descobriram sobre eventos como telepatia, telecinese e premonição - e o que ainda ignoram
Edição
186
Março de 2003

POR Redação Super

Rodrigo Vergara
Numa manhã de verão, uma moradora de Nova York acordou impressionada com o sonho que teve. Em seu sono, ela viu um avião pequeno cair em uma praia à beira de um lago. Havia três chalés no local, mas apenas um foi atingido. Os bombeiros, ao tentar alcançar os destroços, pegaram a estrada errada e demoraram muito a chegar. Quando, finalmente, puderam combater o fogo, era tarde demais. O piloto da aeronave havia morrido queimado. Na manhã do dia seguinte, ela comentou o sonho em duas cartas que escreveu a amigos. E, no final da tarde, quando ouviu um ruído de avião, teve um pressentimento. Gritou para o marido que avisasse os bombeiros, porque aquele avião iria cair. Segundos depois, a aeronave se espatifou na praia de um lago próximo, atingindo, na queda, um dos chalés que ficavam na margem. Os bombeiros pegaram a estrada errada e o piloto morreu queimado. A mulher entrou em depressão, achando que ela poderia ter salvo a vida do sujeito.
Há várias maneiras de interpretar esse caso. Uma delas é atribuir os fatos a uma incrível coincidência. Mas há quem enxergue aí um episódio de premonição, como fez a pesquisadora americana Louisa Rhine. O sonho da mulher de Nova York, na verdade, faz parte de uma compilação de casos de fenômenos paranormais publicado por hine na década de 70. Ou seja, para ela, a mulher previu o futuro em seu sonho.
Em outras épocas, em outras culturas, essa explicação seria prontamente aceita. Afinal, durante muito tempo, as pessoas interpretavam o mundo por meio das idéias de xamãs, bruxos e profetas. Na Grécia antiga, os pais do pensamento clássico recorriam a oráculos que previam o futuro. Na França medieval, acreditava-se que alguns reis, chamados de taumaturgos, eram capazes de curar com o toque. Em alguns lugares, isso acontece até hoje. Em muitas comunidades indígenas, os xamãs são líderes tribais.
Mas na sociedade ocidental racionalista atual o juiz supremo do conhecimento humano é a ciência. É ela que atesta o que é o mundo e como ele funciona. É ela que diz o que é realidade e o que é ilusão. Ou seja, para que uma idéia seja levada a sério, conquiste um espaço nos livros escolares e se torne conhecida e respeitada por todos, ela precisa ser sancionada pela ciência.
A boa notícia é que há, sim, pesquisa científica sobre alguns fenômenos paranormais. Essa ciência chama-se parapsicologia e não estuda todos os acontecimentos estranhos, só três tipos. O primeiro é a percepção extra-sensorial, que é o nome dado para a transmissão de informação que não use nenhum meio físico conhecido, nenhum dos sentidos humanos. Isso inclui três tipos de fenômenos: a premonição, ou seja, receber uma informação do futuro, como a moça de Nova York; a telepatia, que significa a comunicação direta entre duas mentes; e a clarividência, que é a percepção de uma informação sem uso dos sentidos e sem que haja outra pessoa envolvida.
Outro fenômeno estudado pela parapsicologia é a telecinese, ou seja, a influência direta da mente sobre a matéria. Mover objetos sem tocá-los, influenciar máquinas à distância ou curar só com o toque de mãos são considerados fenômenos telecinéticos.
O terceiro fenômeno pesquisado pela parapsicologia é a sobrevivência da consciência sem o corpo, o que envolve o estudo de coisas como reencarnação e experiências de quase morte (os relatos de quem foi considerado clinicamente morto e ressuscitou). Ou seja, como você percebeu, a parapsicologia estuda a influência da consciência sobre o mundo real. Espíritos e ETs não fazem parte de seus estudos.
Para boa parte dos cientistas, entrar em um laboratório para fazer testes de telepatia é uma heresia que faria o cadáver de Newton revirar-se na sepultura. Mas a parapsicologia é, sim, uma ciência. Os parapsicólogos controlam as condições das experiências, fazem previsões e procuram reproduzir os resultados, como nas outras ciências. A Associação Parapsicológica, que reúne os parapsicólogos americanos, é afiliada, desde a década de 70, à prestigiada Associação Americana para o Avanço da Ciência. Como outros ramos da ciência, a parapsicologia tem jornais especializados para publicar seus estudos. E, também como em outras ciências, os parapsicólogos prestam serviços para governos e recebem financiamento público para pesquisas, se bem que o dinheiro para esse pessoal esteja bastante curto.
Foi num desses estudos patrocinados pelo governo americano que despontou Joe McMoneagle, um vidente que tinha as mais altas taxas de acerto entre as cobaias utilizadas nas pesquisas militares. Em seu livro Conscious Universe (“Universo consciente”, inédito no Brasil), o físico e parapsicólogo Dean Radin, que testou McMoneagle várias vezes, relata alguns episódios impressionantes. Em 1979, os militares americanos queriam saber o que havia dentro de um prédio na Rússia. Primeiro, deram a McMoneagle as coordenadas (latitude e longitude) do local. O vidente descreveu o prédio e fez um desenho bastante semelhante ao edifício. Os militares então lhe entregaram uma foto do prédio feita de um satélite e lhe pediram que dissesse o que havia lá dentro. McMoneagle disse que os russos estavam construindo um enorme submarino no prédio. A previsão parecia estranha: submarinos são construídos à beira da água e a água mais próxima do prédio russo ficava a centenas de metros.
O vidente disse que, em quatro meses, os soviéticos escavariam um canal para o submarino sair. De fato, quatro meses depois, havia um canal ligando o prédio à água, e um enorme submarino, classe Tufão, saiu da construção. De 1970 a 1994, o Exército, a Marinha e até a Nasa gastaram cerca de 20 milhões de dólares com esse tipo de pesquisa de visão remota, ou seja, clarividência.
A má notícia é que, apesar do dinheiro e de mais de 130 anos empregados em pesquisas, ainda não é possível afirmar que existem fenômenos parapsicológicos (ou fenômenos psi, como costumam dizer os parapsicólogos). O pior é que também não dá para dizer que eles não existem.
Parte da culpa por essa situação é dos próprios parapsicólogos. É incontestável que há pouca pesquisa científica sobre o assunto. Das que existem, boa parte é descartada no primeiro escrutínio por problemas metodológicos ou por negligência na conduta da experiência. Outra parte acaba desacreditada por análises estatísticas. Por fim, das pesquisas que sobram, uma fatia está impregnada de conceitos esotéricos, que não podem ser analisados pelo método científico. E é comum ler artigos de parapsicólogos tentando salvar do naufrágio pesquisas com sérios problemas metodológicos.
Em um tema de tanto interesse do público, seria de esperar que outros cientistas, de outras áreas, viessem em socorro do conhecimento científico, apontando os possíveis erros e ajudando a construir experiências à prova de falhas, para finalmente descobrirmos se os fenômenos psi existem ou não. Mas isso não acontece. A esmagadora maioria da comunidade científica contenta-se em ridicularizar a parapsicologia sem nem conhecer seus trabalhos acadêmicos.
A minoria que se dispõe a analisar as pesquisas parapsicológicas está encastelada em associações de céticos que dizem que parapsicologia não é ciência e muitas vezes criticam as pesquisas com argumentos tão fantasiosos quanto os dos maus parapsicólogos. As revistas editadas por esses grupos estão cheias desses casos. E já houve casos de céticos famosos acusados de sabotagem. Um dos céticos mais respeitados pelos parapsicólogos é o psicólogo Ray Hyman, da Universidade de Oregon, hoje aposentado. Hyman revisou várias pesquisas dos parapsicólogos e as conhece bem. Mas mesmo ele exibe, às vezes, um ceticismo pouco saudável. Em pelo menos duas ocasiões, Hyman deparou-se com pesquisas cujo resultado, embora inexplicável pelas leis aceitas pela física, não podia ser atribuído a nenhuma falha. Bastaria dizer que não achou falha. Mas ele fez questão de acrescentar uma dúvida sobre a pesquisa. “Não pude encontrar nenhuma falha, se há alguma presente.
Mas também é impossível, em princípio, dizer que qualquer experimento em particular ou série experimental é completamente livre de possíveis falhas”, escreveu.
Ele não reavaliou a pesquisa. Ou seja, os resultados do estudo permanecem válidos. Mas, hoje, Hyman é categórico: “Os efeitos encontrados pelos parapsicólogos devem-se a falhas de método ou de procedimento. Eu nunca vi nenhum efeito autêntico à prova de falhas”, disse ele, em entrevista de sua casa no Oregon.
Em busca de uma opinião isenta para esta reportagem, falei com vários cientistas que estudam o método e a evolução do conhecimento científico. Todos desmereceram as pesquisas dos parapsicólogos. O detalhe é que nenhum deles estava atualizado com as pesquisas que criticavam. Um deles não conhecia um método utilizado há 20 anos, mas não hesitou em dizer que a ciência havia “provado” que os fenômenos psi não existem. E nenhum deles jamais fez um experimento sobre fenômenos psi.
Com esse tipo de opinião sobre a parapsicologia, não é de admirar que os livros didáticos tenham uma visão tão distorcida sobre essa ciência. Em uma pesquisa feita em 1991, o psicólogo americano Miguel Roig descobriu que, entre 64 livros de introdução à psicologia utilizados nos Estados Unidos, um terço nem citava os termos psi ou percepção extra-sensorial. E, entre os que citavam, só oito estavam atualizados sobre as pesquisas, embora não entrassem em detalhes.
Não deixa de ser estranho. Uma das razões pelas quais a ciência tornou-se, por excelência, a doutrina pela qual a humanidade acumula conhecimento, é seu caráter progressista. “A ciência tem características de autocorreção que operam como a seleção natural”, diz o psicólogo americano Michael Shermer, presidente da Skeptics Society (em português, sociedade cética), uma espécie de ONG que combate superstições, crendices e tudo o que não pode ser comprovado cientificamente. “Para avançar, a ciência se livra de erros e teorias obsoletas com enorme facilidade. Como a natureza, é capaz de preservar os ganhos e erradicar os erros para continuar a existir”, afirma.
Mas não é isso que se vê na comunidade dos céticos, da qual Shermer faz parte. Sua opinião sobre a acupuntura é um exemplo. Em 1997, um comitê dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos reconheceu que a eficácia da acupuntura supera o efeito placebo para alguns problemas de saúde, embora seja nula para outros. Mas, ignorando essas evidências, Shermer é categórico em seu diagnóstico dos efeitos da acupuntura. “Eles não existem. São simplesmente efeito placebo.”
Isso pode ser simplesmente preconceito. Mas pode ser uma pista de que o pensamento analítico, que divide o mundo em partes e examina cada uma delas separadamente, tem limitações. Por seus inegáveis méritos, esse modelo moldou a ciência nos últimos 300 anos. Devemos a ele o desenvolvimento de quase todas as novas tecnologias, da saúde à aeronáutica. Por outro lado, alguns cientistas que não têm nada a ver com parapsicologia começam a questionar se essa maneira de ver as coisas é mesmo infalível. Na medicina, por exemplo, a interação entre mente e corpo é cada dia mais aceita, e não é mais uma heresia dizer que relaxamento, crença religiosa e outros fatores de equilíbrio mental afetam sinais vitais mensuráveis, como pressão arterial. O entendimento do processo do estresse, por exemplo, vem dessa mudança. O que a parapsicologia quer saber é se não haveria uma interação parecida entre consciência e matéria (alguns físicos admitem essa hipótese. Leia a reportagem da pág. 25).
Richard Lewontin é pesquisador do Museu de Zoologia Comparada da Universidade Harvard e um expoente da pesquisa genética. Mas ele não está contente com o modo de pensar analítico. Em seu livro A Tripla Hélice (Companhia das Letras, 2002), Lewontin faz uma analogia interessante. Segundo ele, estamos acostumados a ver o pensamento analítico como uma onda que varre os campos do conhecimento por onde passa, uma onda que só não alcança aqueles que fogem dela para refugiar-se em raciocínios bizarros. Mas, segundo o pesquisador, esse modelo científico é mais como os exércitos medievais, que sitiavam as cidades por algum tempo, deixando incólumes as mais resistentes. “A ciência, como a praticamos, resolve os problemas para os quais seus métodos e conceitos são adequados. E os cientistas bem-sucedidos logo aprendem a formular somente problemas que apresentam boa probabilidade de ser resolvidos.”
O tiroteio entre céticos e parapsicólogos vitimou boa parte das pesquisas dos fenômenos psi, que não resistiu às críticas e tombou, para o bem da boa ciência. Mas há sobreviventes. E eles têm histórias impressionantes para contar. O psicólogo Robert Morris, que dirige o curso de Parapsicologia da Universidade de Edimburgo, na Escócia, é um deles. Respeitado até entre as fileiras do exército inimigo, Morris reconhece as fraquezas das pesquisas dos fenômenos psi. “Para conhecer o mecanismo de um fenômeno é preciso manter constantes as variáveis envolvidas. Só assim é que se consegue reproduzi-lo, o que é fundamental para provar sua existência. O problema é que não conhecemos todas as variáveis envolvidas nos fenômenos psi”, diz Morris. “Parte do problema é que estudar pessoas é difícil, como bem sabem os psicólogos. O ser humano é complexo e dificilmente se consegue repetir o resultado de um estudo.”
Apesar de tudo isso, o pesquisador está convencido da existência dos fenômenos psi, mas diz isso com o rigor de um cientista. “Eu estou 95% persuadido de que pelo menos alguns dos efeitos em parapsicologia indicam que novos e genuínos princípios da natureza estão operando. Mas não posso afirmar isso categoricamente. Eu acho que uma certa dose de incerteza é muito saudável para a ciência.” O efeito detectado, diz ele, ainda é fraco. Mas, após milhares de repetições de experiências quase idênticas, ele acha que esse pequeno efeito é consistente.
O psicólogo brasileiro Wellington Zangari, coordenador de um grupo de estudos dos fenômenos psi associado à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, também é cauteloso ao falar dos fenômenos psi. “Não sabemos o que é esse efeito. Podem até ser problemas metodológicos ou estatísticos desconhecidos. Mas, seja o que for, é preciso fazer mais pesquisa para descobrir”, diz ele. “Virar as costas para um resultado inexplicável não vai fazê-lo desaparecer nem vai esclarecê-lo. Se há evidência da existência de algo inexplicável, é preciso estudar mais.”
As evidências de que Zangari e Morris tanto falam são os resultados de pesquisas feitas em laboratório sobre os fenômenos psi. Mas não pense em cadeiras flutuando em laboratórios ou pessoas conversando telepaticamente como se estivessem falando por telefone. As evidências de fenômenos psi coletadas em laboratório são praticamente invisíveis e só podem ser detectadas em imensas séries de testes, depois que os pesquisadores examinam as estatísticas e eliminam a hipótese de que os eventos possam ter ocorrido por coincidência.
Se os resultados fogem do que seria esperado por acaso, o estudo é considerado significativo, ou seja, houve alguma anomalia. Por exemplo: em alguns testes, pede-se que uma pessoa adivinhe qual imagem, entre quatro possíveis, está sendo vista por outra pessoa. Se o experimento é bem-feito, se a pessoa não tem como saber qual é a imagem certa por nenhum meio normal, espera-se que ela acerte um quarto das tentativas que fizer. Se, ao final de um certo número de tentativas, ela acertar 35%, 40% ou 50% das tentativas, essa performance é considerada significativa. Ou seja, fugiu ao padrão que seria esperado.
A confiabilidade desse resultado depende do número de tentativas. Uma pessoa que fizesse uma única tentativa e acertasse em cheio, teria um índice de 100%. Mas isso não significaria nada. Por isso, os pesquisadores costumam comparar a média de acertos com o número de experiências feitas e calcular a chance de que isso acontecesse por acaso. Isso mede a consistência da pesquisa. Quanto maior o número de tentativas, mais consistente é seu resultado.
Em um ramo da ciência tão desacreditado quanto a parapsicologia, a consistência é fundamental para convencer as pessoas de que um efeito de fato existiu. Portanto, é preciso uma quantidade enorme de experiências. Mas isso custa caro e, em geral, os parapsicólogos não são agraciados com muitos financiamentos para pesquisa. Para contornar esse problema, eles utilizam uma ferramenta largamente conhecida pela ciência, chamada meta-análise, que serve para reunir vários estudos diferentes em um só, combinar seus resultados e tirar daí um resultado combinado para todos. A vantagem é que o efeito combinado é mais consistente.
A meta-análise é engenhosa, mas tem alguns defeitos. O primeiro é de credibilidade. A fonte de onde os pesquisadores coletam estudos para combinar são as publicações científicas. O problema é que, em geral, os estudos que não tiveram resultados significativos não chegam a ser publicados. Os resultados da meta-análise, portanto, tendem a ser superestimados.
Outro problema é que a meta-análise funciona como um jogo de futebol que nunca acaba. Se você examinar os primeiros dez minutos de jogo, o time verde ganhou. Aos 30 minutos, o time azul virou o placar. Aos 50, houve empate e, aos 120, o verde voltou à liderança. O que hoje pode ser um resultado significativo do efeito psi pode tornar-se acaso na próxima meta-análise. Pode ser que, neste momento, os resultados escolhidos para esta reportagem estejam sendo suplantados por outros mais atualizados.
Bem, agora que o método científico está bastante explicado, é hora de ver como os fenômenos parapsicológicos ocorrem em laboratório.
Ganzfeld
A pesquisa científica de maior credibilidade sobre paranormalidade é um estudo de telepatia chamado ganzfeld, uma palavra alemã que significa “campo total”. O Ganzfeld é um método inventado por psicólogos para padronizar os estímulos audiovisuais de uma pessoa. Os parapsicólogos adotaram-no por acreditar que a percepção extra-sensorial fica normalmente embotada pelos estímulos do cotidiano. Com os estímulos audiovisuais padronizados, a pessoa ficaria mais atenta à sua percepção extra-sensorial.
No Ganzfeld, a pessoa fica deitada em uma cadeira reclinável confortável, com fones de ouvido. Sobre cada olho, meia bola de pingue-pongue. Os fones tocam chiado, considerado um som neutro. E sobre as bolinhas de pingue-pongue é emitida uma luz vermelha, de forma que, se a pessoa abre os olhos, ela só vê uma luz difusa vermelha. Para garantir que a pessoa não pode se comunicar por telefone ou rádio com o exterior, as salas de Ganzfeld são à prova de som e blindadas contra ondas eletromagnéticas.
O teste funciona assim: um computador seleciona aleatoriamente um jogo de quatro imagens de um banco de dados contendo dezenas delas. Dessas quatro imagens, a máquina escolhe uma. Essa imagem é que será transmitida telepaticamente. O teste envolve duas pessoas: o emissor, que fica em uma sala, em frente a um computador, e o receptor, que fica em outra sala, em estado de Ganzfeld. Durante a sessão, o “receptor” descreve em voz alta todas as imagens que sua imaginação produz. Sua descrição é transmitida para o emissor, como estímulo para que ele se concentre na tarefa. Ao final da sessão, que dura 30 minutos, um computador exibe as quatro imagens selecionadas para o receptor. Sua tarefa é dizer qual das imagens mais se assemelha com o que ele imaginou. Se ele indicar a imagem certa, um acerto direto é computado. Todos os testes são gravados, para o caso de alguém querer conferir.
Em 1994, o parapsicólogo Charles Honorton, hoje falecido, e Daryl Bem, psicólogo da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, fizeram uma meta-análise combinando vários estudos de Ganzfeld realizados entre 1983 e 1989. O resultado, publicado em um prestigiado jornal de psicologia, chamou a atenção pela consistência dos números: de 355 sessões em que uma pessoa tentou acertar a imagem certa, em 122 a resposta foi correta, uma taxa de 34,4% de acerto. A princípio, isso parece pouco, mas a chance de isso ocorrer por acaso é de uma em 20 mil vezes. Para muita gente, isso equivalia a uma prova da existência do fenômeno psi. Como a metodologia descrita por eles era rigorosa, lapidada em anos de debates com céticos, parecia que, finalmente, havia sido descoberta uma receita para repetir o fenômeno psi.
Ray Hyman, o cético da Universidade de Oregon, disse que os resultados eram “intrigantes” e que, se os resultados pudessem ser repetidos em outros laboratórios, a parapsicologia teria feito seu début na ciência. Entre 1994 e 1997, outros seis laboratórios fizeram testes de Ganzfeld. Todos eles tiveram resultados acima da chance, mas em quatro deles a margem de erro incluía a possibilidade de acaso.
Só que a vitória durou pouco. Como já foi dito, a ciência é um jogo que nunca acaba e, em 1996, dois pesquisadores publicaram uma nova meta-análise, incluindo 30 estudos de Ganzfeld que não haviam sido incluídos na revisão anterior. Com esses estudos, a taxa de acerto voltava ao que era esperado por acaso. Bem e Honorton responderam sustentando sua metodologia, mas a polêmica se estendeu em réplicas e tréplicas de cunho técnico, e a prova inequívoca que a parapsicologia buscava se perdeu no caminho. Novos estudos foram feitos e o placar atual, segundo Robert Morris, é de um efeito significativo de 30%. “É fraco, mas é consistente”, diz ele. E tem 95% de confiança.”
Telecinese
Os pesquisadores também testam em laboratório se a mente consegue influenciar a matéria sem utilizar nenhum meio físico conhecido. Esse poder, que aparece com freqüência no cinema, é conhecido como telecinese. Nas experiências em laboratório, no entanto, ninguém tenta mover grandes objetos com o pensamento. Os parapsicólogos acham que mover um objeto parado seria muito difícil. Em vez disso, foi desenvolvido um teste sobre uma máquina que já se move. A idéia é afetar esse movimento. O equipamento utilizado é um gerador de números aleatórios (GNA), um nome dado a vários tipos de aparelhos que funcionam como máquinas de sorteio. Só que essas máquinas produzem apenas dois resultados: 0 ou 1, em uma seqüência aleatória. Em geral, espera-se que, ao final de uma série, o número de zero e um seja igual.
Esse teste foi desenvolvido pelo físico Robert Jahn, ex-diretor da Escola de Engenharia e Ciência Aplicada da Universidade de Princeton, Estados Unidos. Jahn é uma autoridade em engenharia aeroespacial e foi colaborador da Nasa, a agência espacial americana. Hoje, dirige o projeto de Pesquisa de Anomalias em Engenharia de Princeton.
A experiência criada por Jahn consiste simplesmente em um operador tentando influenciar um GNA. Em alguns testes, ele deve tentar fazer a máquina produzir mais 0 que 1. Em outros, o contrário. E, em outros, o operador deve tentar não influenciar o gerador. A experiência dura alguns minutos. Quando acaba, os pesquisadores comparam os números obtidos e a intenção do operador. Se houve um desequilíbrio entre os números no sentido desejado e se esse desequilíbrio estiver fora da margem de erro do próprio aparelho, o resultado é considerado anômalo, ou seja, ocorreu alguma coisa anormal. Para fazer um controle, os pesquisadores comparam os resultados com os números de outro GNA que não foi utilizado na pesquisa.
Em 1989, o engenheiro elétrico e parapsicólogo Dean Radin e o psicólogo Roger Nelson publicaram uma meta-análise dos experimentos com GNA. Foram analisados 832 estudos de 1959 a 1987, de 68 pesquisadores diferentes. Para quem não é do ramo, o resultado foi decepcionante: o índice de acerto foi de 51%, onde 50% era esperado por acaso. Mas os cientistas comemoraram. Devido ao número enorme de sessões, a consistência do resultado foi estratosférica. A chance de esse resultado aparecer por acaso é de uma em um trilhão. Para se ter uma idéia, nos aparelhos monitorados para controle, sem um operador tentando influenciá-los, os resultados foram muito próximos da probabilidade normal: a chance foi de dois para um. Detalhe: em alguns casos, o operador procurava influenciar o equipamento no futuro, ou seja, a máquina só seria monitorada horas depois. Segundo os pesquisadores, a estrutura e o efeito observados nesses casos assemelhou-se aos dos demais.
Os resultados foram bombardeados. Em 1990, o físico Philip W. Anderson, ganhador do Nobel, criticou o método estatístico utilizado nos estudos, o que gerou uma polêmica em que outros laureados cientistas saíram em defesa dos dois lados da contenda. A questão continua sem consenso.
Se a atenção de uma pessoa pode afetar a matéria, a atenção de várias deveria afetar ainda mais. Baseado nessa hipótese, Roger Nelson e Dean Radin verificaram o comportamento de geradores de números aleatórios durante eventos que atraíam grande atenção. A hipótese é que, quando várias pessoas prestam atenção a um mesmo evento, elas criam uma ressonância que afeta a matéria e que poderia ser detectada em um gerador de números. Em 1995 e 1996, Radin examinou esse efeito em oito eventos: um workshop sobre crescimento pessoal, com 12 participantes; duas premiações do Oscar, que foram vistas, cada uma, por um bilhão de espectadores; um show em um cassino de Las Vegas, com 40 espectadores; o julgamento do jogador de futebol americano O.J. Simpson, acusado de matar a mulher, que foi visto por 500 milhões de pessoas; o horário nobre da TV americana, com 90 milhões de telespectadores; e a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, também vista por um bilhão de pessoas.
O experimento funcionava da seguinte forma: o aparelho era ligado durante uma hora antes do evento planejado e desligado uma hora após o término do evento. Os dados aleatórios produzidos eram registrados a cada seis minutos. Durante o evento, um grupo de juízes dizia quais eram os momentos mais e menos interessantes. A hipótese dos pesquisadores era que, nos momentos mais interessantes haveria um padrão nos dados, em vez de números aleatórios.
No caso do curso de crescimento pessoal, que envolvia massagens e relaxamentos, as nove horas do evento foram consideradas de alto interesse. Um GNA colocado no local teve comportamento improvável durante quase todo o período, chegando a picos em que a chance de aqueles números serem produzidos por acaso era uma em 1 000. Quando o mesmo aparelho foi ligado fora do horário do evento, a máquina comportou-se bem próximo do esperado.
Durante o veredicto de O.J. Simpson, o GNA teve um comportamento diferente. Em vez de se manter em comportamento improvável o tempo todo, a máquina mostrou três picos de comportamento incompatível com o normal. O primeiro ocorreu às 9 horas da manhã. Naquele momento, as redes de TV iniciaram a transmissão sobre o caso. O segundo pico parece não ter relação com nenhum evento. Mas, no momento em que o veredito foi dado, os geradores atingiram o pico máximo de comportamento anormal.
Há uma porção de críticas que podem ser feitas a um experimento aberto como esse. O psicólogo Ray Hyman, da Universidade de Oregon, tem as suas. Diz ele que examinar números binários é uma tarefa cheia de armadilhas. “Em um teste, os parapsicólogos conseguiram um padrão especial. Então, deve-se repetir o experimento e procurar o mesmo padrão. Mas, se no outro experimento aparece um padrão diferente, eles vão dizer que esse resultado é significativo, porque não era esperado nenhum padrão. O problema é que, depois que os dados estão disponíveis, sempre é possível encontrar um padrão.”
Experiência de quase morte
O terceiro campo de estudo dos parapsicólogos é a sobrevivência da consciência sem o corpo. Uma das principais fontes de estudo dessa hipótese são as experiências de quase morte, ou seja, aqueles relatos em que o sujeito, quando em grande risco de morrer, vê a vida passar em retrospecto, encontra-se com parentes mortos e sente-se como se saísse do próprio corpo. Não é uma experiência assim tão rara. Uma pesquisa de opinião do Instituto Gallup, nos Estados Unidos, em 1982, revelou que um em cada sete adultos já viveu uma situação assim.
É claro que não se podem testar essas experiências em laboratório. Há dois anos, o cardiologista holandês Pim Van Lommel publicou um estudo polêmico com entrevistas com pacientes que foram considerados clinicamente mortos por um exame de eletroencefalograma, e que ressuscitaram. A ausência de sinal em um eletroencefalograma significa que os neurônios do paciente não estavam se comunicando. Segundo o conhecimento médico atual, a consciência é um produto da transmissão de impulsos cerebrais entre neurônios. Sem eles, não deveria haver consciência.
A parte que despertou polêmica no estudo de Lommel foram os depoimentos de 62 pacientes que disseram lembrar-se do que ocorreu durante o período em que estiveram mortos. Há vários tipos de relatos, mas chama a atenção a repetição de alguns padrões, como enxergar o próprio corpo, ver um túnel de luz, rever toda a vida em retrospecto e encontrar-se com pessoas mortas. O estudo levou Lommel a cogitar a hipótese de a consciência sobreviver fora do corpo.
Na edição 16, de 1991, da revista Skeptical Inquirer (em português, “inquisidor cético”), considerada a bíblia dos céticos, a britânica Susan Blackmore, professora de Psicologia, analisou esse tipo de relato e tem boas explicações para eles. Em primeiro lugar, diz ela, essas experiências não ocorrem somente em situações de extremo perigo para a vida. Há relatos parecidos em situações cotidianas. Outra coisa: não dá para dizer, com certeza, que a memória das pessoas se refere ao tempo em que estavam clinicamente mortas. Para ela, essas sensações se referem ao momento que antecede a inatividade cerebral.
Uma de suas explicações mais engenhosas é para o túnel de luz que muitas pessoas relatam ver. Segundo ela, quando falta oxigênio no cérebro, as primeiras células a entrar em colapso são um grupo cuja tarefa é inibir o excesso de atividade do córtex cerebral. Sem essa inibição, o cérebro produz uma chuva de impulsos nervosos na área cerebral que comanda a visão. Uma simulação disso em computador mostra que essa interferência começa no centro do campo visual e, à medida que o oxigênio acaba, estende-se para o resto do campo. O efeito é o de um ponto de luz que cresce, dando a impressão de um túnel.
A parapsicologia já desfrutou de grande prestígio. Sigmund Freud, o pai da psicanálise, integrou uma sociedade de parapsicólogos. Hoje ela está carente de atenção e credibilidade.
Para Robert Morris, essa situação está prestes a mudar. O pesquisador acredita que, com a introdução de novas técnicas para monitorar o estado mental das cobaias, uma série de distorções hoje cometidas pelos pesquisadores vão desaparecer. E a parapsicologia vai mostrar resultados mais expressivos. Enquanto isso não acontece, não custa nada ir torcendo para que não chova no próximo fim de semana. Tem gente que diz que isso ajuda.

Mundo paranormal

Cientistas tentam provar que telepatas, videntes e cia. Não são fraude. E o que eles acharam intriga o mundo
Edição
267
Julho de 2009
 Gisela Blanco
"O governo americano começou um programa ultrassecreto: formar um exército de paranormais. Um batalhão de homens capaz de usar o sobrenatural como arma de guerra. É o Projeto Stargate." Esse trecho poderia terminar com um "Só aqui. No Sony Entertainment Television". Mas não. Não é ficção. Existiu mesmo um Projeto Stargate no Exército dos EUA. E a ideia realmente era montar um batalhão sobrenatural. Um batalhão de gente com talento para prever o futuro e usar a clarividência para fazer espionagem, enxergando através de paredes e coisas assim. Primeiro eles testavam entre os soldados quais teriam mais perfil de paranormal. Cientistas da Universidade Stanford faziam testes nos homens. Não, não era nada surreal. Mas testes simples, como pedir que o sujeito adivinhasse que carta de baralho você está escondendo aí na mão. Então pegavam os que acertavam mais (quer dizer, os que erravam menos) e faziam mais testes. Até filtrar um grupo de gente que realmente parecia ter algum sexto sentido. Essas pesquisas duraram mais de 20 anos e consumiram US$ 20 milhões. E o mais intrigante: deram resultado. Agora, cuidado. Você está prestes a cruzar uma fronteira. Ao virar a página você vai cair num lugar onde paranormais prestam serviços à indústria e se afirmam com ajuda da ciência. Um lugar além da imaginação: a realidade.

Era 1977. Militares dos EUA queriam saber o que os russos estavam construindo num galpão misterioso, que os satélites americanos tinham flagrado em algum lugar no norte da antiga URSS. Sem ter como espionar a coisa do jeito tradicional, chamaram um dos soldados que mais tinham se destacado nos testes do Projeto Stargate, o especialista em "visão remota" Joseph McMoneagle. Mostraram a foto do galpão e ele sentenciou: estavam construindo um submarino. Os oficiais não acreditaram. Parecia absurdo, já que a construção ficava a quase um quilômetro da água, um lugar pouco propício para fazer um submarino. Mas Joseph disse que em 4 meses sairia um de lá. E acertou.

O Stargate durou até 1995, quando o governo Clinton pôs fim ao programa, que considerou caro para poucos resultados. Mas não foi a primeira nem a última vez em que os paranormais foram levados a sério por instituições sérias. Seus serviços continuam requisitados, e em áreas até mais inusitadas que a espionagem militar.


Profissão: paranormal

Sabe aquela cigana que vem ler sua mão ou as videntes de bola de cristal dos desenhos do Pica-Pau? Esqueça. A paranormalidade está mais do que nunca no mundo da normalidade mesmo. Na polícia, na medicina, no marketing...

É o caso da americana Noreen Renier. Ela é uma detetive paranormal de verdade, que já participou da investigação de mais de 600 casos. A polícia da Flórida e o FBI estão entre os que costumam consultá-la. Já ajudou a encontrar assassinos foragidos, crianças sequestradas e até um avião desaparecido.

Às vezes, a sensitiva apenas sonha com as pistas que depois relata à polícia. Outras vezes, lança mão da psicometria: o sensitivo pega algum objeto do morto e, a partir dele, recolhe informações sobre a vítima e tenta se colocar no lugar dela na hora do crime. Depois, relata o que acha serem detalhes do crime à polícia - como o local onde o corpo está enterrado ou o nome do assassino.

Outro profissional do além é Joseph McMoneagle, aquele do submarino. Esse resolveu ir aonde está o dinheiro: se especializou em trabalhar para empresas. Vivendo isolado em seu sítio nas montanhas da Virgínia, onde mora com a mulher e 6 gatos, o sensitivo fundou a própria firma de consultoria e cobra US$ 250 por hora de trabalho. "Geralmente levo pouco mais de duas horas para enxergar alguma coisa", diz. McMoneagle diz que "vê" quais são os melhores terrenos para companhias de mineração comprarem, por exemplo. E atua em tecnologia também. "Há uns 15 anos uma empresa me perguntou em qual produto deveria investir. Não posso revelar o nome do cliente, mas recomendei que apostasse no mercado de livros eletrônicos", diz. Além de ter antevisto o Kindle em 1994 (acredite... se quiser), McMoneagle trabalha há 9 anos em um experimento inusitado, pra dizer o mínimo: ele está tentando construir uma máquina a partir de imagens vindas do futuro. "Não sei dizer o que a máquina faz ainda. Só vou tentando enxergar as peças uma a uma por visão remota e montando o aparato. Um dia saberemos o que é."

Enquanto você espera, conheça os novos médicos paranormais. "Novos" porque os velhos, como os Doutores Fritz da vida, já deram o que tinham que dar (veja no quadro à direita). A novidade aqui é um grupo de sensitivos brasileiros, do Distrito Federal, que não tenta fazer curas, mas se diz capaz de diagnosticar doenças. Câncer, enfisema, úlcera e problemas circulatórios são algumas das que eles dizem enxergar além dos limites do corpo.

Para testar essas habilidades, uma pesquisa em andamento na Universidade de Brasília acompanha os diagnósticos que uma equipe de sensitivos está dando a pacientes do Hospital Universitário. Depois, o pessoal vai bater os resultados com os dos exames de verdade para ver se alguma coisa coincide. Cada participante tem apenas 10 minutos na sala com o paciente, sob a vigilância dos pesquisadores. E o paranormal não pode tocá-lo nem se comunicar com ele. "Esperamos responder se esse tipo de percepção extrasensorial funciona", diz o físico Álvaro Tronconi, coordenador do experimento. "Se a porcentagem de acertos for acima do esperado pelas probabilidades, vamos investigar como essas pessoas chegam aos diagnósticos e se existem semelhanças entre os métodos que nos permitam estabelecer algum tipo de padrão", diz.

Não estranhe esse casamento entre ciência e ocultismo. Existe quase um século de pesquisas sérias sobre clarividência, telepatia, capacidade de mover objetos com o pensamento e tudo o mais que você possa chamar de paranormal - ou parapsicológico, como preferem os pesquisadores. Cientistas de várias áreas se dedicam a estudar os fenômenos da parapsicologia (ou fenômenos "psi", para encurtar). E, embora nunca tenha havido uma prova por A mais B de que eles existam mesmo, os resultados de algumas dessas experiências são surpreendentes. E podem indicar que talvez exista mesmo algo mais entre o céu e a Terra.


Evidências científicas
A paranormalidade começou a virar ciência com o psicólogo Joseph B. Rhine, o Einstein desse campo. Ele fundou o primeiro laboratório dedicado ao assunto, nos anos 30. E não era num fundo de quintal, mas numa grande universidade dos EUA, a Duke. A ideia de Rhine era criar um método para testar telepatia e clavidência. Como? Com o tipo de teste que o Projeto Stargate acabaria adotando depois: a coisa de adivinhar cartas de baralho. Um voluntário ia colocando cartas na mesa e outro tentava adivinhar o naipe dela - sem ver nada, claro. Metódico, Rhine fazia o máximo para evitar qualquer forma de comunicação entre os dois, como colocá-los em prédios diferentes.

Logo de início, Rhine já encontrou efeitos que parecem mais do que simples coincidência. O baralho, na verdade, tinha 5 naipes (e não 4 como os comuns). Isso significa que a chance de acertar era de 20%. Bom, de 800 tentativas, cada voluntário acertou, em média, 207 cartas. E o esperado para o chute puro era que acertassem só 160 (ou 20% de 800). Como explicar um resultado tão fora do comum?

Isso intrigou muita gente. Afinal, alguma forma de telepatia podia servir como explicação até para coincidências do dia-a-dia. Sabe quando você está pegando o telefone para ligar para alguém, o telefone toca e... é a pessoa? Então. Os experimentos de Rhine podiam ser o primeiro passo para desvendar isso.

A curiosidade foi crescendo. A ciência da parapsicologia também. Logo apareceram testes que prometiam mais exatidão. Como a bizarra técnica de Ganzfeld - "campo total", em alemão. Utilizada desde os anos 70, consiste em fazer com que voluntários recebam imagens telepáticas transmitidas por outra pessoa que assiste a vídeos em outra sala. No final, os voluntários escolhem 1 entre 4 imagens apresentadas. Quem acertar o que o colega tentou transmitir da outra sala, marca um ponto.

A diferença desse teste em relação ao de adivinhar cartas é que o "receptor" fica num ambiente controlado, o tal "campo total", que supostamente aumentaria seu poder de concentração: deitado, ouvindo um som monótono (tipo estática de TV) e com olhos vendados por duas metades de uma bola de pingue-pongue, que transformam o mundo em uma grande mancha branca. Os resultados? Como nos experimentos de Rhine, são consistentemente melhores do que as estatísticas previam.

Essas experiências provam que a telepatia existe? Bom, isso vamos analisar melhor depois. Por enquanto, fiquemos com uma experiência cujo resultado é ainda mais surreal.

O cientista por trás agora é Garret Moddel, um físico da Universidade do Colorado que segue a trilha aberta por Joseph Rhine. Seu objeto de pesquisa: a capacidade de mover objetos com a mente, ou telecinesia. A princípio seria algo fácil de detectar: bastaria pedir que vários autoproclamados paranormais fizessem uma cadeira levitar. Se ninguém conseguisse, nunca, estaria tudo resolvido: a telecinesia não existe e pronto. Só que Moddel, por motivos mais do que óbvios, sabia que não adiantaria fazer isso. Ele imaginava que a mente pode ter algum efeito sobre o mundo exterior. Não sobre a matéria, já que nunca houve registro de alguém que movesse algo com a força do pensamento. Mas sobre a energia. Então resolveu testar a telecinesia usando raios luminosos.

Entre 2006 e 2007 Moddel usou um canhão de luz e uma chapa de vidro para testar sua ideia. A chapa, em condições normais, deixava 92% da luz passar e refletia 8%. "Quando os voluntários olhavam para a luz desejando que ela fosse mais ou menos refletida, os medidores eletrônicos detectaram, sim, uma mudança sutil nos índices de reflexão" afirma Moddel. E põe sutil nisso: ela pulou de 8% para 8,005%. Mas de novo: mesmo assim é algo que, em tese, está fora da nossa capacidade de compreensão.

Se telecinesia e telepatia já são aberrações para a ciência, o que dizer de consciência fora do corpo? Edward Kelly, psiquiatra da Universidade da Virgínia, acha que não. E pede que seus pacientes identifiquem objetos que teriam visto em lugares distantes enquanto faziam suas "viagens" extrasensoriais. O objetivo principal de Kelly é medir o comportamento do cérebro dos sujeitos enquanto eles dizem ter esse tipo de experiência. Mas só o fato de ele também pesquisar se a coisa acontece mesmo já é insólito o bastante.

Insólito como o estudos do psicólogo Daryl Bem. Ele pesquisa a existência de premonições em seu laboratório, na Universidade Cornell. Para verificar se dá mesmo para prever o futuro, ele fez o seguinte: numa primeira etapa, colocou 100 estudantes voluntários para tentar memorizar uma lista de 48 palavras. Cada uma aparecia na tela do computador por 3 segundos. Depois, eles tinham de escrever numa lista as palavras de que se lembravam. Até aí, nada de mais. Mas a segunda parte revelou algo aterrador. Depois que os voluntários já tinham feito suas anotações, o computador escolhia aleatoriamente 24 palavras daquelas 48 e colocava na tela. Aí, surpresa: a coincidência entre os números que o micro escolhia e aqueles de que as pessoas se lembravam era grande demais para ser ignorada. Em outras palavras: isso indicava que, de alguma forma, um evento do futuro (a seleção aleatória que o computador faria) afetava a memória dos voluntários.

Não podia ser mais estranho: a chance de que existissem naturalmente tantas coincidências quanto o experimento mostrava era pífia: de 1 em 111. "Isso é o equivalente a jogar uma moeda 7 vezes seguidas e acertar cara ou coroa em todas elas", diz Daryl Bem. Alguma coisa tinha de estar por trás disso.

Disso e de tudo o mais que envolva paranormalidade. Dizer que ela está "além da imaginação" e pronto não adianta. Metade da física está "além da imaginação". E está certa. A mecânica quântica, por exemplo, ensina que existem partículas capazes de ficar em dois lugares ao mesmo tempo. E não são excentricidades loucas. Você mesmo é feito dessas partículas. Em outra frente, a da física que explica a geometria do espaço e do tempo, está provado que o tempo da forma como o percebemos simplesmente não existe. "A distinção entre passado, presente e futuro é uma ilusão, ainda que persistente", disse Einstein.

Se o mundo da física moderna é praticamente uma realidade paralela, é nele que os estudiosos da paranormalidade se fiam para encontrar a raiz dos fenômenos que pesquisam.

Vamos ver. Como a ciência convencional poderia explicar a precognição, por exemplo? Para a astrofísica Elizabeth Rauscher, que já deu aulas na Universidade Stanford, foi consultora da Nasa e hoje se dedica à "psiência" (sim, a ciência dos fenômenos psi), quem pode explicar isso é o próprio Einstein.

Sua Teoria da Relatividade mostrou que o tempo não é o que parece, certo? Então. No mundo de Einstein, o mundo como ele é de verdade, é como se toda a história do Universo estivesse em um rolo de filme. O primeiro frame seria o momento do big-bang. Lá no meio estaria o nosso presente. E o futuro completaria o resto do rolo. Só tem um detalhe: os frames que formariam o futuro já estão lá. Você não sabe se vai sair no fim de semana ou não? Quem pudesse olhar o Universo pelo "lado de fora" saberia. Isso já está definido, gravado nos "frames" do espaço-tempo. Desde o início dos tempos. Não parece, mas a realidade é assim mesmo.

Bom, se os eventos do futuro já estão impressos de alguma forma, a gente não poderia ter algum sentido capaz de captar o que está por vir? Alguma forma de enxergar, ou de sentir, o que está nos frames lá na frente? É exatamente isso que Rauscher e outros entendidos em física e chegados em parapsicologia ao mesmo tempo imaginam. Se o futuro já está escrito, alguém poderia nascer com o talento de ler o que está lá. Enquanto Einstein fica com a explicação para as premonições (e se revira no túmulo por isso), telepatia e telecinese se apoiam na mecânica quântica. Mais precisamente no fenômeno mais inexplicável desse ramo da ciência: uma espécie de telepatia entre partículas. Os físicos chamam a coisa de "entrelaçamento quântico" - uma propriedade que, apesar de estar 100% comprovada, ainda parece obra do além.

Funciona assim: os físicos pegam duas partículas fundamentais (como elétrons) e, quando mexem em uma delas, a outra se move também. Instantaneamente, sem que haja nada as unindo. Isso funciona mesmo se um elétron estiver no Brasil e o outro na Groenlândia.

Pergunte para qualquer físico por que essa conexão existe. E ele será leviano se disser algo além de "não faço ideia". É um mistério.

E um prato cheio para alguns parapsicólogos. Se elétrons podem se comunicar (ou seja lá o que for) a distância, então as partículas do cérebro também poderiam interconectar-se com as do mundo exterior. E, por que não, fazer com que raios de luz se movam, transmitir pensamentos... "Pela teoria do entrelaçamento, as experiências psi não são mais vistas como poderes que, como mágica, transcendem os limites físicos. Viram uma consequência inevitável de nossa realidade interconectada", diz o parapsicólogo Dean Radin, um dos defensores mais ferrenhos dessa "paranormalidade quântica", em seu livro Mentes Conectadas.

Então tudo certo. A paranormalidade já está praticamente provada por várias pesquisas e, de quebra, as teorias mais sofisticadas da física ajudam a explicar como telepatia, telecinesia, premonição e cia. funcionam. E é isso aí.

Agora pare.O que você leu até aqui é verdade. Mas não toda a verdade.


O lado dos céticos

Vamos voltar às experiências pioneiras de paranormalidade, as de Joseph Rhine. De 800 tentativas, seus voluntários acertaram 207 - contra 160 do que a estatística esperava. Ou seja: 26% contra 20%. Mas tem um problema aí: a estatística prevê esses 20% para um número infinito de tentativas. Quanto menos houver, maior a chance de desvio no resultado. Por exemplo: se você faz o teste e consegue acertar 10 vezes o naipe da carta escondida, vai ter um índice de 100%. Absurdamente maior do que as chances naturais. Conforme você tenta adivinhar mais vezes, a tendência é que o número vá se aproximando dos 20%. E fica a questão: até que ponto 800 tentativas com 26% de acerto são o suficiente para dizer que você leu a mente de alguém? Isso vale alguma coisa? Para qualquer cientista que não leve a sério a parapsicologia (a imensa maioria), a resposta é não.

O mesmo valeu até hoje para todas as pesquisas sobre a paranormalidade. O desvio de luz de Garret Moddel, do ponto de vista dos outros cientistas, estava dentro da margem de erro de seus equipamentos. E o resultado das experiências com premonição de Darryl Bem, apesar de parecerem fortes (com 1 chance em 111 de acontecer), podem ser lidos de outra maneira: ele conseguiu 53% de acertos contra chances estatísticas de 50%. Lendo dessa forma, a coisa não parece tão surpreendente. "Os índices de acerto nessas pesquisas sempre ficam na borda da base estatística", afirma o neurocientista Renato Sabbatini, da Unicamp, fundador da Sociedade Brasileira de Céticos e Racionalistas.

Mas e a relatividade e a mecânica quântica, não dão uma força aos fenômenos psi? A resposta aqui é uma questão de fé. Fé que aconteça uma revolução do conhecimento tão grande a ponto de derrubar certezas científicas de hoje. Uma dessas certezas, comprovadas por mais de um século de pesquisas, é que as loucuras quânticas só funcionam no microcosmo das partículas - e põe microcosmo nisso: se um elétron tivesse o tamanho de uma bola de pingue-pongue, você seria um pouco maior que o diâmetro do sistema solar. E a teoria quântica aceita que coisas como o entrelaçamento só podem acontecer mesmo nesse mundo infinitesimal. Na escala das coisas grandes efeitos desse tipo evaporam. Deixam de existir. Imaginar, então, que algo enorme como um cérebro conseguiria "conectar-se" com outro por entrelaçamento não faz sentido para a ciência convencional - pelo simples motivo de que as experiências de laboratório indicam o contrário.

Com a justificativa física para a premonição é a mesma coisa. A relatividade mostra, de fato, que o espaço e o tempo são como um grande rolo de filme, em que o futuro já está impresso. Mas não há nada na teoria nem fora dela mostrando que dá para o cérebro ter acesso a regiões do espaço-tempo que não sejam o que chamamos de presente. Futuro e passado continuam inacessíveis. Nada disso significa que os pesquisadores dos fenômenos psi sejam charlatães ou burros. O ponto é que, no estágio em que ciência está hoje, ainda não existe nada que corrobore suas teorias. E seus experimentos, que não têm nada de desonestos, precisam de resultados mais consistentes do que os que apareceram até hoje para que a ciência convencional os leve realmente a sério. Os próprios estudiosos da paranormalidade concordam. Mas também se defendem: "Só porque não sabemos como um fenômeno funciona, não é o bastante para parar de estudá-lo", diz Garret Moddel.

Outra coisa que não ajuda é a profusão de picaretas. Os paranormais mais famosos, como o entortador de colheres Uri Gueller e Thomaz Green Morton, o cara do "Rá!", foram desmascarados há tempos (veja os quadros ao longo desta reportagem). Sem falar que até hoje ninguém conseguiu o prêmio de R$ 1 milhão que o mágico James Randi oferece há décadas para o primeiro que conseguir demonstrar poderes paranormais nos laboratórios de sua fundação.

Tudo isso, porém, não muda um fato: a ideia de paranormalidade fascina. E boa parte das pessoas continua vendo exemplos do sobrenatural em coisas do dia-a-dia mesmo. Principalmente nas coincidências, como se elas teimassem em dizer que, sim, existe algo mais entre o céu o e a Terra. Mas isso também tem motivo.

Veja: alguns sonhos são muito comuns (sim, sabemos que você já sonhou que foi para a escola sem roupa). Outros são menos. Desastres de avião, por exemplo. Se você sonhar com a queda de um e isso acontecer no dia seguinte, a sensação de que você teve uma premonição vai ser mais forte do que qualquer vontade de não acreditar em premonições. Mas será uma ilusão. "Supondo que existam uns 2 mil temas de sonhos razoavelmente comuns e que desastre de avião seja um deles, basta que apenas 10% dos quase 200 milhões de brasileiros se lembrem dos sonhos que tiveram na noite anterior e já temos uma chance de pelo menos 10 mil pessoas sonhando com aviões caindo todos os dias", diz o estatístico Osame Kinouchi, da USP. Ou seja, improvável mesmo seria ninguém "prever" a queda de um deles.

Outras coisas que parecem absurdas são bem mais possíveis do que parecem. Por exemplo: num bar com 23 pessoas dentro, qual a probabilidade de que duas delas façam aniversário no mesmo dia? Errou quem chutou baixo. A matemática da coisa é um tanto complexa para caber aqui. Mas garante: são gordos 50% de chance.

E quando você escreve um e-mail para um amigo e, na hora de dar o send, pipoca uma mensagem dele na sua tela? Parece telepatia, principalmente se vocês não trocam mensagens frequentemente. Mas, pelos cálculos de Kinouchi, as chances de que duas pessoas que trocam míseros 6 e-mails por ano enviem suas mensagens um para o outro no mesmo minuto é de apenas 1 em 100 mil. "É mais fácil que ganhar na Mega-Sena, algo que sempre acontece para alguém. Ou de ser morto por um raio, coisa que mata 200 pessoas por ano", afirma. Se considerarmos que existem 1 bilhão de usuários de e-mail no mundo (na verdade são mais), essa incrível coincidência acontece para cerca de 10 mil pessoas a cada ano, ou 27 por dia.

Agora que tal ganhar na loteria duas vezes? Segundo matemáticos da Universidade Harvard, num universo de milhões de pessoas que compram vários bilhetes cada, a chance de que alguma delas fature duas vezes é de 1 em 30. Resumo da ópera: a estatística prova que coisas fora do comum acontecem com uma frequência relativamente... comum! Não têm nada de transcendental. Mas tem outra: apesar de tudo isso, uma coisa nós podemos garantir: você ainda vai ser paranormal.


Tecnologia paranormal

Vai sim, pelo menos no que depender da tecnologia. Em abril deste ano, o estudante de engenharia biomédica Adam Wilson realizou um feito incrível frente a milhares de testemunhas: pela primeira vez na história, escreveu e enviou uma mensagem pela internet usando apenas o cérebro. Não foi truque.

O que Wilson usou foi um capacete com eletrodos, capaz de ler ondas cerebrais exatamente como os aparelhos de eletroencefalograma, ou EEG. Conectado a um computador, quando as letras que o cientista queria digitar apareciam na tela, a máquina reconhecia uma alteração nas ondas cerebrais e passava a informação adiante. Foi assim que ele postou a frase "usando EEG para enviar mensagem" no Twitter. A ideia é possibilitar que pessoas que perderam a fala e os movimentos voltem a se comunicar.

Antes de isso virar um produto, já vai dar para movimentar objetos com o poder da mente. Graças ao Force Trainer, um brinquedo que deve chegar no final do ano. Ele também usa o capacete de eletrodos. Aí, com ele na cabeça, basta se concentrar - não importa em quê - para a bola subir ou descer. Quanto mais você se concentra, mais ela sobe. Se distraiu? Ela cai. O truque mora aqui: quando você se concentra, seu cérebro emite ondas dentro de um certo padrão, diferente do normal. Aí, quando o sistema detecta isso, faz um ventilador se mover. E ele levita a bolinha.

O brinquedo dá uma pequena amostra do que pode ser feito com a neurotecnologia. Combinando engenharia e medicina, essa área da ciência inaugurou a era da telecinesia eletrônica. No ano passado, por exemplo, um robô andou em uma esteira no Japão comandado pelas ondas cerebrais de uma macaca nos EUA. O feito é da equipe do laboratório que o brasileiro Miguel Nicolelis dirige, na Universidade Duke (coincidência: a mesma onde Joseph Rhine começou suas pesquisas). "Com essa interação cérebro-máquina, vamos fazer pessoas que perderam os movimentos andar em menos de 30 anos", disse o pesquisador brasileiro. Gostou? Ah, você ainda não viu nada.

Nada como o colar telepático. Ele manda mensagens direto da sua mente para um celular, sem que você precise falar nada. O colar capta sinais da sua garganta e os manda diretamente para um computador que converte os impulsos em palavras, que são pronunciadas por uma voz computadorizada pelo telefone. Isso porque só de pensar em dizer alguma coisa, seu cérebro já manda sinais nervosos para as cordas vocais. Por enquanto o aparelho é só um protótipo e não é fácil fazê-lo interpretar exatamente o que você quer dizer. Mas, se ele evoluir bem, poderá fazer gente que perdeu a voz voltar a falar. Pelo menos por telefone ou com alto-falantes. E o mesmo princípio está por trás do projeto militar americano Silent Talk (conversa silenciosa), já que telepatia pode ser bem útil no campo de batalha. O governo do país reservou US$ 4 milhões para a pesquisa (bem menos do que tinha gasto procurando paranormais de verdade!). Como disse o escritor de ficção científica Arthur Clarke: "Qualquer tecnologia avançada o suficiente é indistinguível de mágica". Pois é. E agora isso vale para a paranormalidade também. Sem mistério.

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Desmascarado - Dr. Fritz

O que faz: Vários médiuns dizem incorporar o espírito do Dr. Fritz. E fazem "cirurgias" enfiando tesouras nos pacientes. O mais conhecido deles é Rubens de Faria Jr.

Como foi desmascarado: Acusações de provocar mortes durante as cirurgias e uma condenação por danos a um paciente minaram a credibilidade de Rubens, que já não era essas coisas.


Desmascarada - Sylvia Browne
O que faz: É a Mãe Dinah dos EUA. Prevê o futuro na televisão.

Como foi desmascarada: Não chegou a ser, já que aí é uma questão de fé do público. Mas ficou chamuscada depois de errar algumas previsões, como a de que Bush pai ganharia as eleições de 1992 nos EUA (deu Clinton) e que Michael Jackson acabaria preso por pedofilia (foi absolvido).


Desmascarado - Uri Geller

O que faz: Entorta talheres e conserta relógios com o poder da mente.

Como foi desmascarado:
 Depois de uma apresentação, uma equipe de perícia encontrou nas colheres que Geller havia entortado amostras de uma solução de nitrato de mercúrio, que amolece metais. Os relógios? Ele trocava os quebrados por novos.


Desmascarado - Thomaz Green Morton


O que faz: Produz luzes coloridas quando grita "Rá!"

Como foi desmascarado: Parapsicólogos visitaram o sitio de Morton munidos de filmadoras. Com vídeo em câmera lenta, viram que tudo não passava de ilusionismo. Ele usa flashes de máquina fotográfica escondidos pelo corpo para produzir suas luzes "mágicas".
O Profissional
Bola de cristal já era

A paranormalidade já invadiu até as empresas

DETETIVE PARANORMAL
A vidente Noreen Renier já ajudou a polícia da Flórida em centenas de casos. Faz palestras para detetives profissionais e cobra US$ 1 000 por consulta. Faz desconto em casos de crianças desaparecidas.

ALÉM DA IMAGINAÇÃO S.A.Joseph McMoneagle tem uma firma de consultoria paranormal. O americano trabalha tendo visões sobre o futuro do mercado e indicando quais as melhores áreas para investir.

DOUTORES DO OCULTOMuitos paranormais se dizem capazes de diagnosticar doenças, como se fossem médicos. É ilegal, mas faz sucesso. Tanto que a Universidade de Brasília está testando um grupo desses sujeitos.
O adivinhoVários cientistas estudam paranormalidade em seus laboratórios, com todo o rigor possível. E alguns resultados intrigam até os céticos

Laboratório assombrado
Meia bola de pingue-pongue em cada olho para deixar a visão branca. É a receita para aumentar a visão paranormal no laboratório. Assim, dizem os parapsicólogos, pessoas enxergam coisas que estão acontecendo longe delas.

De volta para o futuroPessoas se lembram de fatos que ainda não aconteram, pelo menos nas experiências do psicólogo americano Daryl Bem, da Universidade Cornell. Seus voluntários adivinham palavras que aparecem em um computador antes que elas surjam na tela.
A colher do diaboEntortar talheres virou símbolo de paranormalidade. E de safadeza. existem várias técnicas. Algumas tão simples que dá para fazer em casa. Dá para fazer em casa.

Manual do charlatão, lição 1: como dobrar colheres com o poder da mente.
Passo 1


Prepare as colheres dobrando-as para a frente e para trás várias vezes. O objetivo é enfraquecer o metal, mas sem quebrar a colher. Você vai perceber que a parte mais fina dela vai ficando quente e cada vez mais frágil.

Passo 2

Dobre a colher de volta à posição inicial, para que ela pareça normal. Chame seu público e segure-a pelas pontas. Se ela estiver quebradiça, mantenha a mão em movimento para que ninguém perceba.

Passo 3
Segure a colher pelo meio e esfregue gentilmente por 20 segundos, até que aquele ponto já "amaciado" esquente. Dê também uma empurradinha na haste, discretamente.

Passo 4


A esta altura, a colher já deve estar dobrando. Solte a ponta e mostre como seus poderes paranormais funcionam. Caso a colher quebre, explique que isso é um efeito colateral da sua força telecinética.

* Não fique chateado se o truque não funcionar de primeira. Os bons ilusionistas praticam muito antes de apresentar seus truques. Alguns profissionais também usam talheres preparados com soluções de nitrato de mercúrio e halogenação com flúor, bromo, iodo ou cloro, para deixar os metais mais maleáveis.


Poltergeist
Paranormalidade não é mistério para a tecnologia. Ela já simula telepatia e permite mover coisas com a força do pensamento

Telepatia 2.0Mandar e-mails por telepatia: você escreve a mensagem sem tocar no teclado. Essa tecnologia está em testes, mas já funciona.

Telecinésia em casaCom o Force Trainer, que chega às lojas neste ano, suas ondas cerebrais movem um ventilador que faz a bolinha levitar.


Para saber mais

Parapsychology and the SkepticsChris Carter, Paja.

Extraordinary KnowingElizabeth Lloyd Mayer, Bantaress.

Science of Love: The Wisdom of Well-BeingThomas Jay Oord, Templeton Foundation Press.

A mente pode enxergar?

As experiências de percepção extra-sensorial parecem um teste de adivinhação. Os pesquisadores pedem a uma pessoa que descubra como é um local ou uma imagem, sem usar nenhum meio físico conhecido. Em alguns casos, para ajudar na visualização, os cientistas pedem que o sujeito desenhe o que visualizou. Entre centenas de testes, é esperado, até por coincidência, que algumas descrições fiquem bem próximas do alvo. Mas alguns desenhos impressionam pela semelhança, como mostram os exemplos abaixo. Os céticos lembram que a maioria das descrições não têm nada a ver com o alvo.
Os cientistas pediram a um sujeito que, durante o sonho,visse a foto acima, que estava guardada. Ao acordar, ele desenhou o que viu. Compare.
A missão do autor do desenho era dizer como era o local acima, um prédio em um pântano. Nos comentários, ele diz: “Água”, “pilares”, “um tipo de cerca”.

Para saber mais

Na livraria
Conscious Universe, Dea Radin. HarperCollins, 1997
Parapsychology - The Controversial Science, Richard S. Broughton. Ballantine, 1992
Varieties of Anomalous Experiences, Etzel Cardeña, Stanley Krippner, Steve Jay Lynn (orgs). American Psychological Association, 2000
Science or Pseudoscience? Magnetic Healing, Psychic Phenomena, and Other Heterodoxies, Henry H. Bauer. University of Illinois Press, 2001
Margins of Reality, Robert G. Jahne Brenda J. Dunne. Harcout Brace Jovanovich, Publishers, 1987
Does Psi Exist? - Replicable Evidence for an Anomalous Process of Information Transfer, Daryl Bem e Charles Honorton. Pasychological Bulletin, 1994. Vol. 115. No.1
What Can the Paranormal Teach Us About Consciousness?, Susan Blackmore. Skeptical Inquirer, março/abril de 2001
Na internet
www.parapsych.org
www.ifr.org/csl/index.html
www.icrl.org
www.csicop.org

Fonte das matérias:
http://super.abril.com.br/ciencia/paranormalidade-existe
http://super.abril.com.br/ciencia/paranormalidade-existe

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